• Alfenas, 18/08/2026
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Marco Carvalho

Minas não cabe no mundo da lua: o debate, as promessas e a conta que ninguém quer mostrar


Minas não cabe no mundo da lua: o debate, as promessas e a conta que ninguém quer mostrar

O primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Minas teve dívida, segurança, privatizações, estradas, incentivos fiscais, educação e muita promessa.

O que faltou, em vários momentos, foi a pergunta mais importante: quem vai pagar?

Pode parecer uma questão menor no calor de uma campanha. Não é. O próximo governador vai administrar um Estado ainda pressionado pela dívida, submetido às regras do Propag e com pouquíssimo espaço para aventuras fiscais. A própria projeção oficial para 2027 estima que as despesas obrigatórias representarão 88,2% de toda a despesa estadual. Ou seja: antes mesmo de o governador escolher onde quer gastar, boa parte do dinheiro já tem destino.

É por isso que algumas falas do debate precisam ser confrontadas com a realidade.

E começo por Cleitinho.

O senador quer reduzir a alíquota do IPVA dos automóveis de 4% para 3%. Parece pouco quando dito assim, mas é uma redução de 25% na alíquota. Ao mesmo tempo, promete fortalecer a Polícia Civil, ampliar o uso de tecnologia na segurança, investir mais nas escolas e criar políticas de saúde mental para professores. Também quer impedir a apreensão de veículos em razão do não pagamento do imposto.

Vamos às contas.

De um lado, menos receita.

Do outro, mais despesa.

E no meio aparece a fórmula conhecida: combater sonegação, cortar gastos e rever incentivos fiscais.

Pode funcionar? Pode. Mas onde estão os números?

Quanto será recuperado com o combate à sonegação? Quais despesas serão cortadas? Quanto se economizará? Quais incentivos serão retirados e qual será o efeito disso sobre empresas, empregos e arrecadação?

Sem essas respostas, não há plano. Há desejo.

Cleitinho ainda afirmou que os municípios continuariam recebendo os recursos do IPVA. Claro que continuariam. O problema nunca foi esse. A questão é quanto receberiam se a arrecadação cair. Dizer que o repasse continuará não significa dizer que o valor será preservado.

É justamente aí que mora o populismo fiscal: reduzir imposto é popular, aumentar serviço público também. O difícil é fazer as duas coisas ao mesmo tempo e apresentar a conta.

Alexandre Kalil entra por outra porta, mas também encontra dinheiro com facilidade demais quando fala das renúncias fiscais.

Aqui, é importante dizer: ele toca num problema real. O Tribunal de Contas apontou falhas na política de benefícios fiscais do Estado e informou que Minas renunciou a aproximadamente R$ 128,3 bilhões entre 2017 e 2024. É muito dinheiro e há obrigação de fiscalizar se esses benefícios trouxeram empregos, investimentos e retorno econômico para Minas.

Mas uma renúncia de R$ 1 bilhão não vira automaticamente R$ 1 bilhão no caixa se for extinta.

Empresa muda investimento. Produção muda. Emprego muda. Arrecadação também muda.

A discussão correta não é “incentivo é bom” ou “incentivo é ruim”. A pergunta é outra: quanto Minas abriu mão e o que recebeu em troca?

Se não há retorno comprovado, corte-se o benefício. Se há retorno superior ao custo, eliminá-lo apenas para produzir um número bonito na campanha pode ser outro erro.

Mateus Simões tem um problema diferente dos demais. Ele não pode falar como se estivesse chegando agora ao Governo de Minas.

Ele é o governador.

Quando reconhece que as estradas mineiras têm déficit de investimento e fala na necessidade de pelo menos R$ 4 bilhões para enfrentar o problema, está também reconhecendo uma deficiência da administração da qual participa desde 2019 e que agora chefia.

Então a pergunta para Simões é inevitável: o que fará depois da eleição que seu governo não conseguiu fazer até agora?

O mesmo vale para a dívida. Brasília certamente é parte fundamental da solução e o Propag depende da relação com a União. Mas o Estado já aderiu ao programa, que possui regras, ativos envolvidos, contrapartidas e prazo de pagamento. Não basta dizer que vai negociar.

Negociar o quê?

Qual condição pretende mudar?

E se Brasília disser não?

Governador não é comentarista da crise. É quem precisa administrá-la.

Flávio Roscoe apresentou um discurso de forte convicção liberal. O problema é que, em alguns momentos, parece tratar essa convicção como se fosse prova.

Privatizar aumentaria a capacidade de investimento. Incentivos fiscais atrairiam empresas. Menos burocracia produziria desenvolvimento.

Talvez.

Mas a administração pública exige algo além de fé no mercado.

Uma empresa privada pode ser muito eficiente. Também pode prestar um serviço caro e ruim se houver regulação deficiente, contrato ruim e fiscalização fraca. Incentivo fiscal pode atrair uma fábrica que jamais viria para Minas sem ele. Também pode simplesmente dar dinheiro público a uma empresa que se instalaria aqui de qualquer maneira.

E quando Roscoe fala em tornar o licenciamento da mineração “menos burocrático”, sobretudo em Minas Gerais, convém perguntar exatamente o que pretende retirar do caminho.

Papel inútil? Ótimo.

Duplicidade? Elimine-se.

Prazo absurdo? Corrija-se.

Controle ambiental e avaliação de risco? Aí a conversa é outra.

Depois de tudo o que Minas já viveu com a mineração, “desburocratizar” não pode ser senha para afrouxar fiscalização.

Mercado é instrumento. Estado também. Nenhum dos dois deveria ser religião.

Talvez por isso Gabriel Azevedo tenha me chamado mais atenção no debate.

Não porque tenha apresentado uma fórmula pronta. Não apresentou. E sua proposta de uma agência independente para acompanhar a aplicação dos recursos públicos precisa ser melhor explicada. Minas já tem Tribunal de Contas, Controladoria, Assembleia e outros mecanismos de fiscalização. Criar mais um órgão só faz sentido se ele tiver função clara e produzir algo que hoje não existe.

Mas Gabriel colocou uma questão importante no lugar certo: Minas também precisa olhar para dentro.

Enquanto vários candidatos apontavam Brasília, impostos, incentivos ou privatizações como grandes respostas, ele falou em equilíbrio das contas, controle do gasto e governança. Também recusou a ideia de que preservar empresas estratégicas como a Cemig signifique aceitar aparelhamento político.

Esse me parece um caminho mais sensato.

Não é preciso acreditar que o Estado resolve tudo para defender patrimônio público. E não é preciso vender patrimônio público para exigir eficiência.

O desafio está justamente no meio: ter Estado onde ele é necessário, mercado onde funciona melhor e controle sobre ambos.

Gabriel ainda terá de explicar de onde sairão recursos para algumas de suas propostas, inclusive valorização das forças de segurança. A conta vale para ele também. Mas, naquele debate, me pareceu menos interessado em vender uma solução mágica e mais disposto a discutir como o Estado deve funcionar.

Faltou Patrus Ananias.

Enquanto os demais enfrentavam perguntas e expunham suas contradições, o candidato do PT estava em São Paulo cumprindo agenda política.

E Patrus terá uma pergunta adicional quando entrar no debate.

O último governador petista de Minas foi Fernando Pimentel. Em dezembro de 2016, seu governo decretou oficialmente situação de calamidade financeira, reconhecendo um déficit que comprometia a capacidade do Estado de honrar suas obrigações.

Patrus não era governador e seria desonesto colocar pessoalmente essa conta em suas costas.

Mas existe responsabilidade política.

Partidos gostam de tratar bons governos como patrimônio coletivo e governos ruins como acidentes individuais. Não pode ser assim.

Se o PT quer voltar a governar Minas, precisa explicar o que aprendeu com Pimentel. O que fez errado? O que Patrus faria diferente?

E, pela mesma régua, Simões terá de responder pelo legado de Zema.

É assim que deve ser.

Não acredito que os candidatos sejam iguais. Não são. Há propostas melhores, piores, algumas razoáveis e outras que simplesmente não fecham.

Mas Minas precisa fugir de uma velha tentação eleitoral: o político que promete entregar tudo aquilo que queremos ouvir e deixa para depois a explicação sobre como fará.

Menos imposto e mais serviço.

Mais salário e menos despesa.

Mais investimento sem aumentar receita.

Mais benefício sem cortar nada.

A matemática não se importa com palanque.

Por isso, durante esta campanha, toda promessa deveria vir acompanhada de três perguntas muito simples:

Quanto custa? De onde virá o dinheiro? E o que deixará de ser feito para pagar a conta?

Se o candidato não consegue responder, talvez não esteja apresentando um programa de governo.

Talvez esteja apenas vendendo um mundo da lua.

E Minas já tem problemas reais demais para morar nele.




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