• Alfenas, 04/08/2026
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Merice Lacerda

Adultos não têm problemas com os pais

Cotidiano / Dia dos Pais

Imagem da internet
Adultos não têm problemas com os pais Refugiado da Guerra da Síria reencontra filhos

Na história da humanidade, sempre houve mãe. Pai, nem sempre.

No início, não se sabia quem era o pai, e isso sequer importava. A figura paterna só surge, de fato, com a criação da propriedade privada: afinal, não adiantava acumular excedentes se não houvesse para quem deixá-los. Com isso, os bandos foram se tornando cada vez menores e, no centro da estrutura social, o pai passou a representar o poder, a lei e o patrimônio. Dos egípcios aos gregos e romanos, essa figura dominou e evoluiu. Até que encontrou Jesus, que uniu a figura do pai à do filho pelo afeto e fez a sua própria revolução.

Penso que o meu pai gostaria de ter sabido destas e de tantas outras coisas. Ele, que não teve educação formal, era um curioso pelo que rolava no mundo. Sem acesso a jornais e revistas, se virava mesmo era com o radinho de pilha. Por ele, ouvia notícias que nem sempre entendia direito, mas que o interessavam. A Voz do Brasil era um dos programas que acompanhava, além dos noticiários das rádios AM. Depois, migrou para os jornais de televisão. Mas sempre os jornais.

Meu pai gostava de notícias de guerra e, para o seu deleite, o mundo sempre esteve em guerra. Quando não era o Irã, era o Iraque; se não era o Iraque, era a Guerra das Malvinas; se não, um tal de Golfo Pérsico. E por aí ia. Ele gostava de política também. Mas, veja bem: o interesse do meu pai por política era quase científico. Não tinha envolvimento, não tomava partido, não se emocionava. O que o movia era o "estar sabendo", e não o "estar sofrendo".

O meu gosto pela política vem dele. E ele tinha noção dos nossos gostos parecidos. Quando nos encontrávamos, eu queria saber da roça, do que ele estava fazendo. Perguntava se estava adubando, capinando, tirando leite, se tinha milho ou abóbora, quanto estava a saca de café...essas tolices. Ele não respondia nem sob tortura. Eu ficava tiririca e pensava com os meus botões: "Esse velho já tá caducando". Mas ele dava o seu jeito de desviar o assunto para falar do governo, das guerras, do MST. Não tinha remédio: eu tinha que também conversar sobre as abobrinhas da política, e sobre as abóboras de verdade, ficava chupando o dedo.

Meu pai foi praticamente ausente da minha adolescência à fase adulta. Ao contrário do que muitos possam imaginar, nunca tive problemas com isso. Se ele foi ausente de lá, eu fui ausente de cá. Estava cada um cuidando da sua própria vida e que bom que cada um cuidou devidamente.

À certa altura, porém, comecei a ouvir que eu deveria ter problemas com o meu pai por causa disso. Mas sabe aquela história de lei que não pega? Foi o que aconteceu. Esqueci que deveria ter problemas e continuei não tendo. Nas ocasiões em que nos encontrávamos, estava tudo bem; se passávamos tempos sem nos ver, tudo bem também. Na verdade, o que eu sentia por ele era gratidão por ter me poupando de um ambiente tóxico. Quando ele morreu, não havia nenhuma rusga entre nós, como nunca houve.

Hoje, reconheço que pareço com ele em várias coisas. Experimente tentar conversar comigo sobre um assunto que eu não queira. Provavelmente, vou desviar o assunto. Penso que meu pai estava coberto de razão, que coisa chata! Além de ter que ralar na roça, ainda tinha que ficar contando da ralação? Eu é que era a sem noção. E sou politiqueira como papys, nem precisa de explicação. Muito da minha personalidade vem dele.

Acho um desperdício essa crença que rola solta por aí, de que os pais são os culpados por todos os nossos problemas. "A mãe é complicada, mas faz uma comida temperadinha; o pai é péssimo, mas nos deu a vida" -  é o que dizem. Na verdade, pais são apenas pessoas imperfeitas, iguais a nós. Eu não tenho ilusões a meu respeito, por que teria a respeito do meu pai? Não é correto pensar que você tem o direito de errar, mas o seu pai, não; ele tem que ser perfeito. Ah, para com isso!

Adultos não têm problemas com os pais. Crianças são emocionalmente imaturas, mas adultos sabem que todos os adultos falham. O que quer que tenha acontecido na infância, ninguém vai voltar lá para modificar. Então, não compensa perder tempo com isso. Se o seu pai está vivo ou por perto, vale a pena manter uma relação saudável - que não precisa necessariamente ser amorosa. E se ele for ausente ou já falecido, compensa não fazer disso um dilema, ciente da certeza adulta sobre a finitude da vida.


Merice Lacerda

Advogada em Alfenas

Politiqueira, como papys



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