Marco Carvalho
Quando a desigualdade deixa de ser econômica e se torna um problema humano
É impressionante e preocupante como estudos como o mais recente relatório da Oxfam passam quase despercebidos na grande mídia. Números que deveriam gerar debates públicos e políticas urgentes muitas vezes são tratados como estatísticas abstratas, sem repercussão real. Neste caso, os números revelam um alerta civilizatório: a desigualdade global atingiu níveis que não podem mais ser ignorados.
O relatório da Oxfam, apresentado no Fórum Econômico Mundial de Davos, mostra que a riqueza total dos bilionários no mundo chegou a US$ 18,3 trilhões em 2025, o maior patamar já registrado. Em apenas um ano, esse grupo acumulou US$ 2,5 trilhões adicionais, um crescimento de aproximadamente 16%, enquanto a redução da pobreza global praticamente estagnou.
O mais perturbador não é apenas o volume absoluto de riqueza, mas a sua concentração extrema. Doze pessoas hoje detêm mais riqueza do que os 4 bilhões de seres humanos mais pobres do planeta, o equivalente à metade da população mundial. É um fato mensurável, documentado e reiterado por organismos internacionais, mas que raramente gera reflexão no cotidiano das pessoas.
Essa concentração não é neutra e se converte em influência política capaz de perpetuar ciclos de desigualdade. Bilionários têm milhares de vezes mais probabilidade de ocupar cargos públicos ou influenciar decisões estatais do que o cidadão comum. No Brasil, essa relação é particularmente preocupante. Casos recentes, como o escândalo do Banco Master e suas ligações com altas figuras da República, mostram como o capital pode moldar políticas públicas em favor de poucos, consolidando privilégios e ampliando desigualdades.
O fenômeno global encontra ecos diretos no Brasil. O país possui hoje 66 bilionários, o maior número da América Latina, com fortuna somada de cerca de US$ 253 bilhões, equivalente a aproximadamente 20% do orçamento federal. Enquanto isso, o sistema tributário permanece regressivo: quem vive de salário paga proporcionalmente mais impostos do que quem vive de patrimônio, lucros e heranças.
O impacto dessa desigualdade se traduz no cotidiano das pessoas. Hospitais públicos sobrecarregados, escolas com infraestrutura insuficiente, transporte precário, segurança pública fragilizada, aposentadorias e seguridade social ameaçadas e habitação deficiente são alguns exemplos de áreas que poderiam ser melhoradas se houvesse distribuição de recursos e escolhas políticas mais equilibradas. Não se trata de falhas pontuais ou azar coletivo, mas de decisões estruturais que beneficiam poucos e prejudicam muitos.
Mais do que uma questão econômica, essa desigualdade extrema afeta o pacto humano que sustenta a sociedade. Nenhuma espécie prospera quando aceita como normal que poucos acumulem recursos em escala inédita enquanto bilhões lutam para garantir o básico. Níveis extremos de concentração moldam instituições, deformam prioridades e limitam horizontes coletivos.
Ignorar essa discussão não é uma opção. É necessário refletir coletivamente, redefinir limites, restaurar o sentido público das escolhas econômicas e resgatar a ideia de que prosperidade só é sustentável quando compartilhada. Essa é uma questão de sobrevivência social, legitimidade das instituições e dignidade humana.
Quando tratamos como normais desigualdades desse porte, o que está em jogo não é apenas eficiência econômica, mas a própria capacidade de manter coesão social, serviços públicos funcionais e direitos básicos. A pergunta que fica é clara: que tipo de humanidade estamos dispostos a aceitar?



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