• Alfenas, 01/05/2026
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Marco Carvalho

Quando os rótulos envelhecem e o povo muda de endereço político


Quando os rótulos envelhecem e o povo muda de endereço político


Há algo de anacrônico no debate público brasileiro. Enquanto a realidade se move em velocidade crescente, parte da análise política permanece aprisionada em categorias que já não explicam o país com a mesma precisão de outrora. Fala-se de esquerda e direita como se ainda estivéssemos diante das mesmas clivagens do século XX. Mas o Brasil de hoje é outro. E o povo também.


Os rótulos tradicionais tiveram, sem dúvida, utilidade histórica. Ajudaram a organizar visões de mundo, projetos econômicos e disputas culturais. Ainda possuem algum valor interpretativo. O problema começa quando se transformam em dogma e passam a substituir a observação concreta dos fatos.


Basta olhar para a trajetória nacional desde a redemocratização.


Tancredo Neves simbolizou a conciliação necessária para encerrar o ciclo autoritário. Coube a José Sarney conduzir institucionalmente a transição e entregar ao país a Constituição Federal de 1988, marco civilizatório que restabeleceu liberdades e ampliou direitos.


Depois veio a urgência econômica. A hiperinflação corroía salários, desorganizava famílias e humilhava os mais pobres. Itamar Franco liderou o governo que gestou o Plano Real, e Fernando Henrique Cardoso consolidou a estabilização monetária, reorganizando os fundamentos macroeconômicos do país. Sem moeda estável, não há política social duradoura.


Na sequência, Luiz Inácio Lula da Silva assumiu sobre bases econômicas mais sólidas e, favorecido por um cenário externo generoso, promoveu expansão do crédito, valorização do salário mínimo e programas de transferência de renda. Houve avanços concretos. Milhões melhoraram de vida. Negar isso seria partidarismo, não análise.


Mas o tempo tratou de revelar que parte dessa prosperidade possuía pilares frágeis.


O consumo cresceu, muitas vezes, sustentado por endividamento. A formalização conviveu com baixa produtividade. A ampliação de acesso a bens materiais nem sempre foi acompanhada por salto equivalente em educação pública, segurança, infraestrutura urbana e eficiência estatal. Em muitos casos, ascendeu-se ao mercado sem ascender plenamente à cidadania.


No governo Dilma Rousseff, os limites do arranjo tornaram-se evidentes. Recessão severa, crise fiscal, desemprego, inflação e ruptura política encerraram o ciclo anterior. Michel Temer assumiu com agenda de contenção e reformas, tentando recompor bases institucionais e econômicas.


Em seguida, Jair Bolsonaro emergiu como fenômeno menos ideológico do que muitos imaginam. Sua ascensão deveu-se menos ao conservadorismo clássico e mais ao sentimento anti-establishment: revolta contra corrupção, fadiga com a política tradicional, demanda por ordem e linguagem direta.


O retorno de Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, confirmou outra característica brasileira: o eleitor vota menos em etiquetas abstratas e mais em memória concreta, carisma percebido e expectativa de melhora material.


É justamente aqui que a velha divisão esquerda x direita começa a falhar.


O conflito contemporâneo parece opor, com frequência crescente, outros polos: povo e establishment, eficiência e ineficiência, proximidade e arrogância, resultado e retórica. O cidadão comum quer saber se haverá emprego, segurança, escola decente, saúde funcionando, contas pagáveis e alguma esperança no horizonte. O resto vem depois.


Enquanto isso, setores importantes da esquerda institucional deslocaram parte relevante de sua energia para disputas simbólicas e identitárias que, embora legítimas em diversas dimensões, muitas vezes soaram distantes das urgências cotidianas da maioria.


O trabalhador informal sem proteção.


O pequeno empreendedor sufocado por burocracia.


A mãe angustiada com a escola precária do filho.


O morador da periferia acuado pela violência.


O aposentado comprimido pelo custo de vida.


O jovem sem perspectiva.


Esses brasileiros passaram a ouvir explicações sofisticadas para problemas simples demais.


Foi então que parte da direita percebeu algo elementar: o povo deseja respeito, renda, ordem, mobilidade e reconhecimento. E passou a incorporar pautas historicamente associadas ao campo popular, como a crítica a privilégios, defesa do pequeno empreendedor e promessa de eficiência estatal.


Daí o espanto de alguns analistas diante dos chamados “pobres de direita”. O espanto revela mais sobre quem observa do que sobre quem vota.


O eleitor popular não é um paradoxo acadêmico. É alguém reagindo à própria vida.


Se a esquerda brasileira quiser reencontrar densidade majoritária, talvez precise revisitar suas melhores origens: falar a linguagem do país real, priorizar questões materiais, defender serviços públicos de qualidade, estimular mobilidade social e substituir superioridade moral por escuta genuína.


Menos culto aos rótulos.


Menos nostalgia automática.


Menos distância cultural.


Mais Brasil concreto.


Porque o povo brasileiro raramente rejeita justiça social. O que rejeita é sentir que sua existência virou detalhe secundário em projetos de poder que falam muito sobre todos, mas escutam cada vez menos alguém.



Sobre o autor

Marco Carvalho, o Marquinho do SUS,é advogado e historiador, com especializações em Gestão Pública,Direito Administrativo, Direito Sanitário, Compliance e Auditoria do Setor Público.

Ao longo da sua trajetória, busca unir conhecimentos técnicos e uma visão humanizada, para compreender melhor os desafios e potencialidades que envolvem nossas histórias e nossas comunidades. Seu compromisso é compartilhar análises honestas e fundamentadas, sempre com respeito à complexidade do mundo e às pessoas que nele vivem.








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