• Alfenas, 25/01/2026
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Marco Carvalho

Em 10 meses, Alfenas arrecada mais que em todo ano de 2024.


Em 10 meses, Alfenas arrecada mais que em todo ano de 2024.

Dados oficiais indicam crescimento de receita; pressão nas contas vem do lado do gasto, não da queda de arrecadação.


A Prefeitura de Alfenas (MG) tem repetido, em programas oficiais e entrevistas, que o município enfrenta uma “queda vertiginosa de receita” em 2025, usando o argumento para justificar cortes, atrasos e reestruturações na máquina pública. Em setembro, o próprio prefeito participou do programa “Conversa com o Prefeito” destacando a “queda na arrecadação” como eixo central da narrativa de crise fiscal. (Veja a declaração aqui)

Uma análise dos dados oficiais do Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG) e do Portal da Transparência de Alfenas, porém, aponta na direção oposta:

  • a receita total do município cresceu,

  • 2025 já superou 2024 em apenas dez meses,

  • o risco fiscal decorre muito mais de como o dinheiro é gasto do que da falta de recursos.


O que dizem os números do TCE-MG.

Para 2024, o TCE-MG registra para Alfenas uma receita orçamentária total de aproximadamente R$ 522,8 milhões, considerando o ano fechado. Trata-se do valor consolidado utilizado pelo próprio órgão de controle para fins de acompanhamento da gestão fiscal e análise das contas municipais por meio de seus sistemas, como o Painel Fiscalizando com o TCE - Minas Transparente. (disponível aqui)

Nesta coluna, esse valor é adotado como referência única para a “receita total de 2024”, a fim de evitar debates técnicos entre receita bruta, líquida ou classificação contábil. Quando se fala em “receita de 2024”, entende-se R$ 522,8 milhões.


Em 10 meses, 2025 já ultrapassou 2024.

A partir de relatórios oficiais do Portal da Transparência de Alfenas, com visão consolidada da Prefeitura e do Fundo Municipal de Saúde (FMS), nossa apuração identificou os seguintes valores para 1º de janeiro a 31 de outubro de 2025:

  • Prefeitura (administração direta) – “Valor arrecadado mês (Soma)” (receita líquida):
    R$ 280.849.645,75

  • Fundo Municipal de Saúde (FMS) – arrecadação no mesmo período:
    R$ 245.716.784,22

  • Total consolidado Alfenas – jan/out 2025 (Prefeitura + FMS):
    R$ 526.566.429,97

Quando esse número é comparado ao valor de 2024 inteiro segundo o TCE-MG (R$ 522,8 milhões), o resultado é direto:

Em apenas 10 meses, a Prefeitura de Alfenas em 2025 já arrecadou cerca de R$ 3,8 milhões a mais do que todo o ano de 2024.

Ou seja: não há queda de receita no acumulado do ano, há, ao contrário, crescimento.


Ritmo de arrecadação: 22% a mais no comparativo janeiro–outubro.

A comparação período a período reforça essa leitura. Com base em relatórios consolidados da própria Prefeitura, a receita líquida de janeiro a outubro de 2024 (Prefeitura + FMS) foi de aproximadamente R$ 431 milhões.

No mesmo intervalo de 2025 (jan–out), a arrecadação chegou a R$ 526,6 milhões.

  • Diferença aproximada: R$ 95,6 milhões a mais

  • Crescimento no período comparável: cerca de 22% de aumento real na arrecadação entre jan–out de 2024 e jan–out de 2025.

Em outras palavras, o ritmo de entrada de recursos em 2025 é significativamente maior do que no ano anterior. Falar em “queda na arrecadação”, à luz desses números, não é compatível com os dados oficiais.


Novembro e dezembro: o peso do fim de ano nas contas.

O comportamento da receita em novembro e dezembro também ajuda a projetar o fechamento de 2025.

Segundo o Portal da Transparência, a arrecadação de novembro e dezembro de 2024 foi, em valores brutos:

  • Prefeitura: R$ 60.486.247,55

  • FMS: R$ 34.852.324,54

Total nov–dez 2024: R$ 95.338.572,09 – o equivalente a cerca de 17% da arrecadação anual de 2024.

Partindo desse histórico, é possível desenhar cenários conservadores para 2025:


Cenário 1 – Repetição nominal de 2024

Se, em 2025, novembro e dezembro arrecadarem exatamente o mesmo valor nominal de 2024 (cerca de R$ 95,3 milhões), a conta fica assim:

  • Receita jan–out 2025: R$ 526,6 milhões

  • + nov–dez 2025 (igual a 2024): R$ 95,3 milhões

  • =Receita total 2025 projetada: ~R$ 621,9 milhões

Comparada aos R$ 522,8 milhões de 2024, essa projeção representa um crescimento de cerca de R$ 99 milhões, ou aproximadamente 19% de aumento de receita anual.


Cenário 2 – Repetição da mesma proporção (17% do total)

Se, em vez de repetir o valor nominal, 2025 repetir a mesma proporção de 17% no fim do ano, significa que os 10 primeiros meses representam 83% da arrecadação anual. Nesse caso:

  • 526,6 milhões=83% da receita de 2025

  • Receita total projetada ≈ R$ 634,5 milhões

Isso implicaria um crescimento da ordem de R$ 111,7 milhões sobre 2024, algo em torno de 21% de aumento anual.


Em ambos os cenários – tanto no conservador, quanto no proporcional – não há queda de receita

Não existe cenário plausível, à luz dos dados oficiais, em que 2025 feche com menos receita do que 2024. O que varia é o tamanho do aumento, não a existência dele.


Se entra mais dinheiro, por que o discurso é de crise?

Se a arrecadação cresce, mas o governo municipal fala em “crise por queda de receita”, o desequilíbrio precisa ser buscado em outro lugar: no padrão de gastos e na qualidade da gestão orçamentária.

Relatórios do TCE-MG, ao analisar prestações de contas anteriores de Alfenas, já chamavam atenção para questões como planejamento orçamentário deficiente, necessidade de melhor alinhamento entre orçamento e demandas sociais e atenção à legalidade, economicidade e eficiência do gasto público(Parecer disponível aqui)

Paralelamente, reportagens do próprio Quarto Poder vêm apontando, ao longo de 2024 e 2025, uma expansão de despesas correntes e gastos de baixa prioridade, em contraste com dificuldades em áreas essenciais:

  • Em 2024, a gestão destinou mais de R$ 5,4 milhões a consultorias e shows, enquanto apenas cerca de R$ 1,6 milhão foi reservado a aluguéis sociais e cestas básicas, revelando uma forte inversão de prioridades entre festas e proteção social. (Matéria aqui)

  • No mesmo período, foram identificados R$ 2,8 milhões em consultorias e R$ 2,66 milhões em shows e eventos artísticos, além de R$ 728 mil em decoração natalina, superando, por exemplo, o investimento de Poços de Caldas – cidade turística de referência na região – em sua própria decoração de Natal. (Matéria aqui)

  • Em uma outra análise minha sobre educação inclusiva, foram destacados R$ 5,2 milhões em shows e eventosR$ 2,48 milhões para uma única empresa de projetos de engenhariacerca de R$ 929 mil em consultorias jurídicas privadas e R$ 254 mil em diárias de viagem, enquanto políticas de inclusão escolar sofriam cortes sob o argumento de “responsabilidade fiscal”. (Matéria aqui)

Esses números ajudam a explicar por que uma prefeitura que arrecada mais pode, ainda assim, alegar dificuldades nas contas:

trata-se menos de “falta de dinheiro” e mais de como e onde o dinheiro é aplicado.


Déficit acumulado e excesso de serviços de terceiros: o outro lado da equação.

Em outras publicações, o Quarto Poder já mostrou que a Prefeitura de Alfenas acumulou, entre 2018 e 2024, um déficit superior a R$ 113 milhões, resultado da diferença entre despesas e receitas no período. 

Esse histórico de gasto acima da arrecadação pressiona o caixa municipal, mesmo em um cenário em que a receita cresce. Somam-se a isso:

  • despesas com superficialidades;

  • contratos recorrentes e terceirizações de alto valor;

  • aumento de despesas correntes que não necessariamente se traduzem em melhora de serviços.

Quando a despesa cresce de forma desordenada, qualquer oscilação pontual de receita é amplificada, e pode ser politicamente convertida em narrativa de “colapso” ou “queda vertiginosa”, ainda que os números totais mostrem crescimento.

O que o cidadão de Alfenas precisa saber.

Os números oficiais mostram que não há apagão de receita em Alfenas em 2025. Pelo contrário: a cidade arrecada mais, em ritmo mais acelerado, e deve fechar o ano com um salto importante de recursos em relação a 2024.

Quando, mesmo assim, a narrativa oficial insiste em “queda de arrecadação”, o debate precisa sair da contabilidade abstrata e entrar no terreno concreto das escolhas de governo:

  • Quem está se beneficiando do aumento de arrecadação?

  • Por que áreas essenciais como saúde, assistência social e educação inclusiva seguem sob pressão?

  • Quais contratos e despesas têm crescido mais rápido que a própria receita?

A crise que se desenha em Alfenas não é de falta de dinheiro, mas de gestão e prioridades.


E isso o cidadão tem o direito (e a responsabilidade) de acompanhar de perto.


Sobre o autor

Marco Carvalho - Marquinho do SUS
Advogado e historiador, especialista em Gestão Pública, Direito Administrativo, Direito Sanitário e Auditoria do Setor Público. Professor e militante social em defesa do SUS, da educação, da inclusão e da democracia. Atua buscando conectar conhecimento técnico e visão humanizada para o desenvolvimento responsável do potencial de Alfenas.



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