Merice Lacerda
Lula venceu porque perdeu
Como se deu a virada inédita do campo progressista
Ultimo ato da campanha de Lula na Av. PaulistaSe Luiz Inácio Lula da Silva tivesse vencido o primeiro turno por uma margem estreita, o desfecho da eleição presidencial de 2026 poderia ter sido radicalmente diferente. A história da política das últimas campanhas mostra que vitórias antecipadas ou por margens exíguas costumam gerar um efeito anestésico: a militância se acomoda, o eleitor indeciso perde o senso de urgência e a estrutura de campanha desacelera. Em uma eleição disputada voto a voto, a vitória de Lula no segundo turno só foi possível, paradoxalmente, porque a derrota simbólica ou o sobressalto do primeiro turno funcionou como um choque de realidade para o eleitorado e a oposição ao bolsonarismo.
A campanha do primeiro turno foi marcadamente morna. Faltavam liderança clara, tração nas redes sociais e um discurso agregador capaz de transpor as bolhas tradicionais da esquerda. Faltava, sobretudo, o senso de perigo. Contudo, no instante em que a população se viu confrontada com a possibilidade concreta do retorno da família Bolsonaro ao Poder Executivo, desencadeou-se uma dinâmica que o próprio governo e a esquerda partidária não haviam conseguido promover ao longo de quatro anos de mandato: uma coalizão popular e espontânea de ampla escala.
O segundo turno não foi ganho apenas pelos gabinetes, mas pela reorganização orgânica da sociedade civil. O território digital, historicamente dominado pela direita, começou a ser disputado com vigor a partir da entrada de estratégias de contraofensiva digital — desenhadas ainda nos moldes da articulação combativa que emergiu em campanhas anteriores —, trazendo coordenação para a narrativa progressista nas redes. Paralelamente, as ruas foram reocupadas por uma convergência inédita: movimentos estudantis, centrais sindicais, coletivos jovens, fandoms e a população trabalhadora.
Um dos pilares decisivos dessa virada foi a estratégia de acolhimento. Ao convocar os idosos para a mobilização e sensibilizar os grupos mais vulneráveis, a campanha ativou um apelo afetivo e comunitário de grande apelo social. Os idosos, em particular, tornaram-se vetores de comunicação direta e engajamento digital, ampliando o alcance do diálogo com as camadas mais humildes e rebatendo discursos de ódio com uma mensagem de proteção e dignidade.
É preciso reconhecer que a mobilização digital e o pragmatismo eleitoral sempre foram trunfos da direita. Em disputas anteriores, a capacidade de aceleração da direita na reta final quase reverteu cenários tidos como consolidados — demonstrando que, com mais tempo de campanha, o resultado poderia ter sido outro na campanha de 2022. Em 2026, porém, ocorreu uma migração desse ímpeto mobilizador para o campo progressista.
Por outro lado, o resultado do pleito escancara o esgotamento de uma estratégia de comunicação focada exclusivamente em nichos radicais. A direita brasileira enfrenta o desafio urgente de se reorganizar no campo estritamente democrático e institucional, desvinculando-se de lideranças que insistem na retórica do confronto permanente. O segundo turno evidenciou que atitudes que funcionam para alimentar bolhas ideológicas geram forte rejeição quando expostas ao eleitorado amplo e moderado.
Os confrontos diretos na televisão e os episódios de reta final expuseram esses limites. Posturas agressivas, deboches em debates transmitidos em rede nacional, ataques dirigidos a características pessoais do adversário e declarações pejorativas ou estereotipadas sobre regiões do país — como o Nordeste — atuaram como catalisadores da própria derrota.
Assim como em momentos anteriores a oposição cometeu erros táticos decisivos nos dias que antecederam a votação, a reta final de 2026 demonstrou que a comunicação política não pode ser pautada pelo ruído e pela provocação contínua. Falar para quem já está convertido é simples; dialogar com o eleitor de centro, que busca compostura e propostas concretas, exige maturidade política.
Em última análise, a eleição de 2026 não foi decidida apenas pelo balanço do último mandato, mas pela capacidade de reação de uma sociedade que percebeu o risco da inércia. O choque do primeiro turno foi a fagulha necessária para despertar a mobilização popular, enquanto os excessos da candidatura adversária consolidaram a rejeição do eleitorado moderado.
Abriu-se uma nova janela de oportunidades para a direita e para a esquerda. A direita, se quiser vencer pleitos nacionais, deve analisar candidaturas viáveis fora da família Bolsonaro e seu entorno mais radical e a esquerda será testada em sua capacidade de retomar o necessário diálogo com a sociedade e ajuste das contas.
Merice Lacerda
Advogada em Alfenas-MG.
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