• Alfenas, 29/09/2026
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Merice Lacerda

A Eleição Passa, a Vida Fica

Política, Paixão e Estoicismo: A Vida Depois das Urnas

Justiça Eleitoral
A Eleição Passa, a Vida Fica Cola eleitoral

A campanha presidencial é a que mais costuma despertar paixões. E essa paixão não é só no nosso andar de baixo: as paixões políticas estão destruindo o STF, que deveria passar ao largo de brigas dessa natureza. Fato é que o coração nunca é neutro; cada um tem as suas preferências político-partidárias. E aquele velho ditado que diz que política e futebol não se discute está cada vez mais atual.

Ouvir o outro lado e ponderar as propostas alheias está cada vez mais difícil, porque, em matéria de política, a emoção sequestrou a razão há muito tempo. Na era das redes sociais, passamos a viver confortavelmente em bolhas políticas onde não se tem o incômodo de topar com o inimigo. E toda essa animosidade produz histeria e um sofrimento em determinadas pessoas que deve ser combatido.

É comum se ouvir por aí que, se determinado candidato ganhar, a propriedade privada será abolida. Ou que, se aquele outro vencer, perseguirá as minorias; que fulano vai confiscar a poupança, beltrano vai fechar igrejas… Se A ou B ganhar, não vai acontecer nada disso. O mundo vai continuar exatamente o mesmo. A maioria das pessoas, que é de boa-fé, vota pensando no bem-estar coletivo.

Obviamente, eu posso achar que determinado candidato é melhor do que o outro. E, se o outro — que não é o meu candidato — ganhar, penso que haverá perdas. Mas isso não é motivo para perder a paz, romper laços familiares ou adoecer mentalmente por causa de uma eleição. É exatamente aqui que a sabedoria milenar do estoicismo nos oferece uma boia de salvamento.

Os antigos estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, repetiam exaustivamente uma lição básica, mas que teimamos em esquecer: é preciso separar o que depende de nós do que não depende de nós. O que depende de nós? Nossos valores, nossas ações, a forma como tratamos o vizinho que vota diferente e a nossa serenidade diante do resultado das urnas. O que não depende de nós? A vitória de A ou B, as decisões que o futuro presidente tomará e a visão política daquele parente teimoso no grupo de WhatsApp.

Quando transferimos nossa felicidade e nossa paz de espírito para algo externo — como o resultado de uma eleição —, tornamo-nos reféns do acaso. O estoicismo não nos convida à apatia ou à indiferença; pelo contrário, ele nos convida a agir com responsabilidade cívica (votando e debatendo com respeito), mas a manter o desapego emocional em relação ao desfecho.

Afinal, a democracia é uma maratona, não um ringue de vale-tudo. Se o candidato de nossa preferência perder, a vida continua, os boletos chegam no fim do mês e o sol nasce do mesmo jeito. O antídoto para a histeria coletiva não é a concordância cega, mas o cultivo da sobriedade. A nossa sanidade mental vale muito mais do que qualquer palanque.


Boa eleição a todos os leitores.




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