Merice Lacerda
Deus, o diabo e banqueiro no cerrado
Em um encontro provável
Deus fez o cerrado maravilhoso.
O diabo passou por lá e pensou: lugar grande, isolado e quente. Perfeito pra ser o inferno. E foi-se embora.
O bandeirante passou por lá e pensou: lugar isolado. Bom pra construir uma prisão. E foi-se embora.
Juscelino Kubitschek passou por lá e pensou: lugar grande, bom pra construir a nova capital do Brasil.
E assim formou-se um consórcio. O diabo entrou com a vaidade, o bandeirante com a ideia de colocar os bandidos num só lugar e JK com as máquinas.
Brasília estava pronta.
Para lá se mudaram nossos inglórios representantes.
Isolados nos palácios e longe do povo, toda trama para o desvio de dinheiro público foi aperfeiçoada.
Todo cargo de confiança, incluindo os tribunais formados por indicação, foi sendo preenchido de acordo com os contatos políticos, e não com o saber jurídico ou qualidades técnicas.
A Constituição passou a servir para duas coisas: ser invocada quando for de benefício e ser esvaziada quando contrariar os interesses.
O diabo estava muito satisfeito, mas meio entediado. “Ora, ora”, pensou. “Esse pessoal já desviou dinheiro de tantas maneiras: emendas, emendas pix, desvios em obras, orçamento secreto, verba da saúde, da educação, do INSS, rachadinha, lobby, privatização…” (a lista era comprida). “Já sei: vou criar um Banco. Já criei bancos fraudulentos no passado, mas este será especial.”
E assim nasceu o Master.
Não deu outra. O Master já nasceu tirando dos fundos de pensão dos velhinhos e aposentados, roubou de outro banco — que coisa! —, gamou do FGC e muito mais. Repetiu a receita antiga e dividiu entre os figurões dos três poderes.
Mas do que o diabo gostou mesmo foi do rastro de destruição deixado. O seu pupilo comprou a peso de ouro integrantes da mais alta corte, financiou surubas, filmes infantis e, o mais importante, plantou a discórdia no coração do poder que realmente manda no país.
Agora que o dinheiro acabou, começou a guerra entre os ocupantes desse mesmo poder. Sem a verba jorrando, voltaram a ter brio, espírito público e a condenar a corrupção. Enquanto a mamata rolava solta para todos, probleminhas comportamentais de corrupção passiva eram meras distrações.
Mas não se engane, a crença continua a mesma.
O cerrado segue impassível, assistindo a terra tremer com mais um escândalo de corrupção.
Merice Lacerda
Advogada em Alfenas-MG



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