Merice Lacerda
Cinquentando
Estou há 50 anos no Brasil, como o Fiat 147
Fiat 147Assim como o Fiat 147, estou completando 50 anos de Brasil. Não sei quanto ao Fiat, mas eu ainda me sinto no auge da juventude - se bem que, de vez em quando, sou obrigada e me render aos fatos.
A matemática é mesmo infalível: trabalhei naquele local tantos anos, quase vinte naquele outro, estou há quatorze no último...Pensando bem, muita água já rolou debaixo dessa ponte.
Me considero uma pessoa de sorte por viver em uma época de tamanho progresso. Se eu tivesse nascido há cem anos atrás, provavelmente estaria vivendo exatamente no mesmo mundo dos meus avós. E não, muito obrigada. Já escrevi aqui sobre a minha infância ( https://www.4poder.net/materia/100/merice-lacerda/uma-caixa-chamada-psique.html ) e muitos leitores provavelmente pensaram: "essa mulher deve ser um dinossauro". Mas que nada! O acontecido foi no início da década de 80. O mundo mudou muito nos últimos 50 anos e eu me beneficiei disso.
Não sou do tipo saudosista, sou do tipo realista. Envelhecer tem os seus desafios e exige adaptação contínua. O corpo é um deles. Dói, você toma um remédio. No outro dia, vai ao banheiro, olha a cor da urina e passa a acreditar que tem umas duas horas de vida, no máximo. Até se lembrar do bendito remédio, já se imaginou chegando ao paraíso. Tem também aquelas vezes em que você vai fazer um exame e primeiro recebe a notícia de que apareceu um caroço, nódulo ou coisa que o valha. Só depois informam que é benigno, coisa da idade. Quando ouvi do médico "tire isso da cabeça", emendei na hora a música "põe o resto no lugar". Sim, porque isso faz uma bagunca danada na cabeça da gente.
Eu tenho SII e já fiquei pré diabética. A única solução, me disseram, era ir para a academia. Eu tinha mais medo de academia do que dos milicianos, mas fui. Tudo ia relativamente bem, até que o joelho começou a doer. Passei a usar joelheira. Depois foi o abdômen que doeu. Comprei cinta. Daí chego na academia de cinta e lá vem meu amigo: "nossa, como você emagreceu!". Raramente penso antes de falar e já estava na ponta da língua contar sobre a cinta, quando ele aumentou os elogios: "olha aquela moça (e indicou uma mulher magérrima, linda), você está muito mais bonita que ela, não gosto de mulher muito magra". Achei que estava bom pra mim e fiquei quieta. Penso que a vida depois dos 50 é sobre isso: adaptabilidade e resiliência. Você não desiste, mas para continuar tem que se adaptar - seja com um exercício físico, seja com as novas tecnologias. É preciso persistir e manter o bom humor.
Conheço pessoas na minha faixa etária que só querem se aposentar. E conheço outras que querem mudar o mundo. Eu, particularmente, que sempre fui da turma do devagar e sempre, não me filio a nenhuma das correntes. Adoro trabalhar, mas não estou mais disposta a acordar às cinco da manhã para estudar. Não mais. Uma boa meta que uma pessoa da minha idade pode estabelecer, na minha opinião, é aproveitar mais a vida com os recursos de que dispõe.
Adoro os posts de viagens, curto todos! Mas viajar envolve dois recursos escassos que nem sempre a gente tem: tempo e dinheiro. Não adianta ficar secando a viagem dos outros para a Europa, isso não vai te levar pra lá. Se eu vejo um post de Mônaco e fico com vontade conhecer, vou para Poços de Caldas. Vi alguém em Paris e fiquei com vontade? Vou para Poços de Caldas. Dá na mesma. Em Poços de Caldas faz frio, é cheio de prédio velho e não arruina as minhas finanças. Quando eu estou mais rica, vou pra Aparecida do Norte ou pra praia. Bão tamém!
Desde por volta dos meus 40 anos, sofro stalking e assédio de uma organização criminosa. Esta turminha já me encheu muito o saco. Hoje, o máximo que eles conseguem é me encher a bola. Dia desses, estava eu na fila esperando para pagar um salgadinho quando escuto um vozeirão atrás de mim: "recebe dessa mulher aí que ela é da polícia federal". O que eu posso dizer sobre isso? A-do-rei! Quer saber mais? Baixe o meu ebook.
E, muito importante, pretendo continuar escrevendo sempre. Escrever é uma forma de retribuir para a sociedade o conhecimento que você se apropria ao longo da vida acadêmica. Eu cursei duas faculdades e mesmo sendo uma delas particular, não considero que no valor da mensalidade esteja embutido todo o conhecimento de gerações que me apropriei. Só dinheiro não paga a luta e a dedicação de todos os profissionais que nos antecederam.
Cinquentar é ótimo e poder continuar trocando uma ideia com o mundo é melhor ainda!
Merice Lacerda
Advogada em Alfenas-MG
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