• Alfenas, 03/09/2026
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Marco Carvalho

Nem picanha, nem fuzil. Se podemos ter Rivotril.


Nem picanha, nem fuzil. Se podemos ter Rivotril.

Platão jamais poderia imaginar o que faríamos com o Mito da Caverna. 

Na alegoria de A República, homens permanecem acorrentados olhando sombras projetadas numa parede e, por nunca terem conhecido outra coisa, acreditam que aquilo é toda a realidade. 

O brasileiro resolveu modernizar o experimento. 

Instalou Wi-Fi, criou grupos de WhatsApp, abriu perfis nas redes sociais e colocou uma urna eletrônica no meio da caverna. 

E duas grandes sombras passaram a disputar a parede. 

De um lado, a picanha. 

Do outro, o fuzil. 

Durante anos fomos convencidos de que era preciso escolher. O churrasco ou o arsenal. Uma sombra ou a outra. E mais: não bastava preferir uma delas. Era necessário desenvolver certa aversão moral por quem estivesse contemplando a parede oposta. 

Até que, no meio dessa gritaria, apareceu Augusto Cury. 

Um psiquiatra. 

Convenhamos: há momentos em que a realidade possui um senso de humor difícil de superar. 

Depois de anos discutindo entre picanha e fuzil, eis que surge o Rivotril. 

Metaforicamente, claro. 

Não estou prescrevendo medicamento a ninguém — embora certos grupos de família no WhatsApp testem seriamente nossa resistência. 

Cury começou a crescer nas pesquisas falando justamente de pacificação, diálogo, equilíbrio emocional e superação da polarização. É cedo para saber se seu crescimento é consistente ou apenas uma fotografia passageira do processo eleitoral. Mas talvez a pergunta mais interessante nem seja o que está acontecendo com Cury. 

Talvez seja o que está acontecendo conosco. 

Porque pode ser que uma parcela do país esteja simplesmente cansada. 

Cansada de ter de escolher entre dois polos como se todas as outras possibilidades políticas houvessem sido interditadas. 

Cansada de transformar toda eleição na batalha definitiva entre o bem e o mal. 

Cansada de ouvir que, se não quiser picanha, necessariamente deseja fuzil — ou vice-versa. 

Daí a tentação quase inevitável: 

Nem picanha, nem fuzil. Se podemos ter Rivotril. 

É uma brincadeira, evidentemente. 

Mas talvez exista alguma coisa séria escondida dentro dela. 

Carl Gustav Jung dedicou parte importante de sua obra aos riscos de o indivíduo perder sua capacidade crítica diante das massas, das ideologias e dos grandes “ismos”. 

E talvez esteja aí uma das doenças da política brasileira. 

O problema não é a esquerda. 

Não é a direita. 

Democracias precisam de ambas. 

O problema começa quando a esquerda vira esquerdismo, a direita vira direitismo e a convicção se transforma em fanatismo. 

Quando deixamos de possuir nossas ideias e nossas ideias passam a nos possuir. 

A partir daí, o raciocínio se torna maravilhosamente simples. 

Se o meu candidato acerta, é competência. 

Se erra, foi sabotado. 

Se o adversário acerta, foi sorte. 

Se erra, revelou finalmente aquilo que sempre soubemos sobre seu caráter. 

A pesquisa que mostra nosso candidato na frente é científica. A que mostra atrás está comprada. 

A imprensa que critica o outro é livre. A que critica o nosso faz parte do sistema. 

E a entrada de sola do nosso zagueiro, todos sabemos, foi na bola. 

Não discutimos mais política. 

Torcer ficou mais fácil. 

Talvez seja exatamente esse ambiente que tenha aberto a fresta pela qual Cury passou. 

Mas aqui há um cuidado fundamental. 

Fugir do fanatismo não pode significar apenas escolher um fanatismo novo. 

Seria uma proeza tipicamente brasileira abandonar lulismo e bolsonarismo para, algumas semanas depois, inaugurar solenemente o curysmo. 

Jung provavelmente pediria uma segunda opinião. 

A própria entrevista de Cury no Jornal Nacional foi útil nesse sentido. Fora do terreno confortável da inteligência emocional e diante das exigências concretas de governar, apareceram dúvidas, lacunas e propostas que merecem muito mais exame. 

E ainda bem. 

A democracia amadurece justamente quando somos capazes de enxergar imperfeições naquele de quem gostamos. 

Cury pode estar correto ao diagnosticar a exaustão emocional provocada pela polarização e, ao mesmo tempo, não ter ainda respostas suficientemente boas para diversos problemas do país. 

Uma coisa não elimina a outra. 

Afinal, perceber que os moradores da caverna estão à beira de um ataque de nervos não significa necessariamente conhecer o caminho da saída. 

Presidência da República não é consultório. 

Orçamento público não responde bem a técnicas de respiração. 

E negociação com o Congresso talvez exija dosagem que nenhum laboratório conseguiu desenvolver. 

Por isso, cuidado com a fórmula. 

Nem picanha, nem fuzil. Se podemos ter Rivotril é uma ótima piada para descrever o momento. 

Mas Rivotril também tem bula. 

E talvez justamente aí esteja a parte mais interessante dessa história. 

O crescimento de Cury não precisa significar que o Brasil encontrou um salvador. Pode significar apenas que uma parcela dos brasileiros começou a procurar outra coisa. 

Uma fresta. 

No Mito da Caverna, o primeiro passo para a liberdade não é encontrar imediatamente todas as respostas. É desconfiar das sombras. 

Talvez estejamos começando a desconfiar de algumas das nossas. 

Pode ser pouco. 

Mas, depois de tantos anos olhando para uma parede onde só apareciam picanha e fuzil, descobrir que existem outras imagens possíveis já não deixa de ser alguma coisa. 

Se será Cury, outro candidato ou ninguém, é uma discussão para os próximos meses. 

Por enquanto, talvez seja suficiente perceber o recado. 

O brasileiro parece cansado da guerra. 

E, se continuarmos gritando desse jeito até outubro, a disputa talvez deixe mesmo de ser entre esquerda e direita, picanha ou fuzil. 

A esta altura, haverá quem aceite qualquer coisa que venha acompanhada de um pouco de paz. 

Ainda que, metaforicamente, precise de receita controlada.



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