• Alfenas, 22/07/2026
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Merice Lacerda

Trump e Eduardo Bolsonaro: produtos de coachs atrasados

Coachs habitam o brejo existencial

Imagem da internet
Trump e Eduardo Bolsonaro: produtos de coachs atrasados Eduardo Bolsonaro e Donald Trump

Quem presta atenção no debate público já percebeu que estamos trocando o pensamento crítico pelo coachar dos coachs. Coachs são como sapos: barulhentos, repetitivos e habitam o brejo. O problema é que o brejo habitado pelos coachs é o da nossa própria existência.

Para entender como chegamos a esse atoleiro, preciso voltar no tempo. Até meados de 2012, eu trabalhava no meio corporativo. Naquela época, fiz diversos cursos motivacionais, treinamentos de relações humanas e formações em programação neurolinguística (PNL). Eram cursos bons, práticos e contidos. Eles existiam dentro da esfera profissional para alinhar expectativas, melhorar a produtividade e ajustar a comunicação de trabalho.

A postura de quem participava também era outra: mantínhamos uma saudável distância crítica. O instrutor falava, a gente filtrava aproveitando de 20% a 30% do que realmente servia, aplicava no dia a dia e bola pra frente. Ninguém saia dali venerando o palestrante como um profeta do apocalipse ou reestruturando a própria alma a partir de um slide de PowerPoint.

De uma década pra cá, a coisa degringolou de vez.

O coaching sofreu uma mutação bizarra. Deixou de ser uma ferramenta de trabalho para se transformar em uma epidemia de soluções simplistas para dilemas humanos profundos. Hoje, existe coach para absolutamente tudo: coach para vencer a preguiça, coach de beleza, coach para dor de cabeça, coach espiritual. Criou-se um mercado lucrativo baseado na infantilização e na insegurança das pessoas.

A regra do jogo mudou: em vez de filtrar o que se ouve, o público agora abraça o pacote completo com um fanatismo cego. O coach moderno não dá dicas; ele dita regras morais, de comportamento e estilo de vida. Mesmo quando o conselho parece bom, como um "não fume", a pedagogia por trás é a da lavagem cerebral. O indivíduo terceiriza a sua capacidade de pensar, de decidir e de sentir.

Exemplo dessa fábrica de alienação é a ascensão dos tóxicos coaches Red Pill. Vendendo a ilusão de um despertar para a realidade, esses mentores de masculinidade frágil pregam um ressentimento sistemático contra as mulheres. Eles não vendem desenvolvimento pessoal, vendem validação para a frustração e um culpado externo (mulheres) para os problemas do indivíduo.

Mas o maior desastre aconteceu quando esse método de seita invadiu setores mais sensíveis da sociedade: a religião e a política.

Ao trocar o debate de ideias pela linguagem de gatilhos mentais e slogans de palco, a política ocidental passou a ser dominada por gurus e manipuladores de massas. Eduardo Bolsonaro é o fruto acabado desse processo: um produto moldado pelo "guru" Olavo de Carvalho que trocou a filosofia por uma pregação ruidosa de costumes, formando uma legião de militantes incapazes de raciocínio autônomo. Do outro lado do continente, Donald Trump e seus estrategistas aplicaram a mesma fórmula de engenharia comportamental, transformando ressentimento social em projeto de poder.

O resultado dessa arquitetura de controle é uma sociedade visivelmente mais ignorante. Estamos produzindo uma geração de pessoas assustadas, reativas, incapazes de lidar com a complexidade do mundo real. Figuras que se dizem líderes nada mais são do que subprodutos de mentores atrasados, especialistas em vender ilusões fáceis para problemas complexos.

O ocidente está atolado no brejo existencial porque trocou a razão pelo barulho dos sapos. Se não voltarmos a resgatar a autonomia de pensamento, aquela velha capacidade de ouvir um discurso, rir do absurdo, aproveitar apenas os 20% úteis e mandar o resto passear, continuaremos sendo governados e guiados por quem só sabe coachar.


Merice Lacerda

Advogada em Alfenas

Coach de samambaias



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