• Alfenas, 08/06/2026
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Merice Lacerda

A sublimação de Freud no altar de São Francisco e Santa Clara

Cotidiano Dia dos Namorados

Imagem do filme Irmao Sol Irmã Lua
A sublimação de Freud no altar de São Francisco e Santa Clara São Francisco e Santa Clara

Sempre desconfie dos poetas. Eles pegam o amor, centrifugam-no na máquina de lavar, trituram-no no liquidificador, batem-no na batedeira, jogam-no nas ruas e calçadas dos bares para ser pisoteado e depois nos apresentam poesias.

Quero falar do amor antes de ser transformado em vítima do holocausto poético. Quero falar do amor em estado puro.

Para isso, nada melhor que mergulhar na obra de três ícones ocidentais do anti-romance: Sigmund Freud (1856-1939), São Francisco e Santa Clara de Assis (século XIII).

Para entender as impressões de Freud sobre o amor, precisa-se partir de um conceito central da teoria freudiana: a libido. Para Freud, a vida se organiza a partir dela. A libido, na teoria, não é só o desejo sexual, mas a mola propulsora de vida, é a chama que acende cada ser humano.

Freud tratou também da questão da escolha amorosa. Para ele, a escolha não se dá pelo outro, mas apesar do outro, posto que é muito mais baseada em nós mesmos: escolhemos o nosso espelho baseado em nossas próprias questões do passado, do presente ou do futuro.

São Francisco e Santa Clara escolheram o espelho para par, mas não o fizeram buscando um romance físico. A conexão entre eles era espiritual. Ao mesmo tempo, não era só um amor platônico, era uma paixão ardente canalizada para o divino. Ao inibir o objetivo físico, o amor entre eles se expandiu e se tornou eterno. Isso só foi possível porque ambos compartilhavam o mesmo ideal divino e desapego à carne.

À primeira vista, o divã de Freud e o altar da mística medieval parecem opostos absolutos. No entanto, quando olhamos mais de perto, percebemos que o carnal Freud e os descarnais Santos de Assis estão falando da mesma coisa.

Pense na água. Em seu estado líquido ela escorre pelo chão e busca por outro corpo. Ao se aplicar um calor intenso, ela muda o seu estado físico, se evapora e torna-se invisível.

A água é a grande fonte de vida, a libido. O calor pode ser comparado aos sentimentos nossos de cada dia, santos ou profanos, e a evaporação é a sublimação.

A grande liberatação que a psicanálise freudiana nos oferece é compreender que a energia do amor, essa pulsão de vida, esse movimento que nos empurra pra frente, não precisa necessariamente de outra pessoa para se manifestar. Ela pode ser direcionada a uma ideia, um projeto, uma arte ou uma causa e com isso se sublimar, como fizeram os Santos de Assis.

Muitas vezes, em fases da vida em que nos sentimos tristes, subjugados ou silenciados pelas circunstâncias, podemos operar um resgate do nosso narcisismo e nos alimentar da nossa própria capacidade de criar para superar a dor.

Criar um texto, pintar uma tela ou abraçar um projeto profissional são manifestações legítimas e potentes de nossa pulsão de vida.

O amor, antes de ser um encontro de corpos, é a força que nos impede de desistir de nós mesmos.

Um feliz dia dos namorados para todos os enamorados pela vida!


Merice Lacerda

Advogada em Alfenas_MG

No fundo, no fundo, inveja os poetas



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