• Alfenas, 27/05/2026
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Merice Lacerda

Não se deixem roubar ou roubaremos depois

Geopolítica na América

Imagem da internet
Não se deixem roubar ou roubaremos depois Imagens das ruas de Havana

Em tempos de instabilidade global, nações americanas sob regimes autoritários e sufocadas por embargos econômicos tornaram-se alvos preferenciais de uma nova dinâmica de poder, muitas vezes camuflada sob o manto da promoção democrática e da ajuda humanitária. Mais do que a antiga alcunha de "quintal" geopolítico, a América Latina e o Caribe assumem o contorno de zonas de disputa assimétrica, onde a fragilidade interna é instrumentalizada por interesses externos para o controle de ativos estratégicos.

O cenário venezuelano ilustra bem esse mecanismo. Internamente, o país enfrenta um modelo desgastado pela corrupção e pela forte presença militar na gestão pública. Do lado de fora, a resposta dos EUA a essa vulnerabilidade foi invadir, sequestrar o ditador e emplacar liderança interina sem lastro popular real. Essa manobra, longe de mitigar o sofrimento da população serviu para tensionar a soberania do país e abrir espaço para o cerceamento de suas principais riquezas. O petróleo e o ouro, este último em escalada histórica de valorização no mercado internacional, deixaram de ser recursos puramente domésticos e viraram peças de barganha em um tabuleiro onde o principal prejudicado continua sendo o cidadão comum.

Cuba, a próxima a ser pilhada pelos EUA, enfrenta um estrangulamento econômico crônico sob uma realidade estrutural distinta. Na ilha, a centralização econômica está nas mãos do Estado, que gerencia setores vitais como o turismo, comércio exterior e telecomunicações. A narrativa externa de uma transição democrática iminente esconde o real interesse em absorver essa infraestrutura de exploração criada pelo estado cubano, além de se apropriar de uma posição geográfica estratégica. O resultado pretendido pela pressão dos EUA não é uma emancipação social mas a substituição do monopólio estatal pelo controle de corporações americanas.

O mesmo parece que não será possível no Irã, nação de matriz milenar cuja identidade histórica e resiliência institucional foram forjadas e testadas em séculos de conflitos e invasões. Tratar o estado iraniano sob a mesma ótica simplista aplicada a atores regionais insurgentes ou voláteis foi o grande erro americano.

Como a lógica da pilhagem fácil só funciona mesmo na América, é o caso do povo brasileiro ficar atento.

Neste cenário historicamente conturbado na América Latina, o Brasil tem se destacado pela relativa estabilidade institucional e pujança econômica. No entanto, o tamanho de sua economia e a solidez de suas estruturas não o tornam imune ao vírus do autoritarismo; pelo contrário, apenas elevam o valor do espólio para os predadores do Estado.

A mesmíssima cartilha aplicada na Venezuela e em Cuba já foi ensaiada por aqui. A tentativa de subverter a ordem democrática por meio do aliciamento das Forças Armadas nada mais é do que o roteiro para um repeteco latino-americano onde as armas deixam de proteger e passam a subjugar a população.

Casos de corrupção institucionalizada e favorecimentos escandalosos no mercado bancário demonstram que o projeto golpista e o saque econômico caminham de mãos dadas.

Internamente, o que vem depois já é sabido: empobrecimento da população e expropriação das liberdades individuais. 

Externamente, o que pode advir depois também não é animador: além de condições sociais e laborais cada vez mais precárias, commodities como ouro, petróleo, água e minerais críticos serão pilhados à luz do dia.

O recado dos EUA para os países da América Latina está dado: não se deixem roubar ou roubaremos depois.

Se quisermos ser pilhados pelas regras do jogo como temos sido até agora, é melhor parar de brincar de democracia na América.


Merice Lacerda

Advogada em Alfenas

Fã de salsa



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