Merice Lacerda
Democracia em construção e corrupção
Atacada por fora e por dentro do sistema: o Estado sou eu
Praça dos Três Poderes, DFMuitos avaliam que o maior ataque recente à democracia sofrido pela República Federativa do Brasil foi a tentativa de golpe militar fracassada após a derrota nas urnas do ex presidente jair Bolsonaro.
Penso que não. Ao final do mandato de Jair Bolsonaro, um governante fraco, entreguista do orçamento federal ao Congresso Nacional, mal gestor na pandemia, a caserna não se animava em dar um golpe e entregar o poder para Bolsonaro. Não gostar de Lula era uma coisa, mas avalizar uma ditadura para colocar a família Bolsonaro no poder era outra bem diferente. Não haveria golpe de qualquer jeito. O beneficiário não compensava.
O maior ataque que a democracia vem sofrendo nos últimos anos, capaz de causar não apenas vertigem, mas de miná-la completamente no Brasil, chama-se corrupção.
A corrupção deteriora a confiança das pessoas nas instituições democráticas. Sucessivos escândalos de corrupção fazem muitas pessoas desejarem a volta da ditadura, que foi outro ninho de corrupção, só que bem abafado. E por isso mesmo, desejado por muita gente mal intencionada.
Atacada por fora e por dentro do sistema, a democracia brasileira até aqui sobreviveu, mas requer aperfeiçoamentos.
O Estado sou eu.
A opinião pública não vale mais nada no Brasil. Os políticos jogam pra si e alguns juízes dos tribunais superiores, também. São absolutistas numa democracia. E ainda encontram defensores, outros juízes dispostos a assinar notinhas em suas defesas, e outros políticos que fazem declarações favoráveis aos corruptos. Tudo sem o menor pudor.
Interessante observar que no regime parlamentarista monárquico da Inglaterra, a preservação da monarquia é o principal objetivo do rei ou rainha. Se alguém da família manchar a sua reputação é excluído. Mais recentemente, foi assim com o príncipe Andrew.
Por aqui, que nem monarquia é, as autoridades se acham mais rei que o rei da Inglaterra.
Democracia em construção
Endeusar a democracia como um dogma é um erro dos democratas. A democracia será para sempre questionada e atacada. A democracia precisa dar respostas aos anseios dos cidadãos de cada época.
A democracia representativa, por exemplo, parece estar no centro da insatisfação das pessoas. Com toda tecnologia disponível, no futuro, a humanidade poderá experenciar a democracia direta.
Se o deputado não precisa ir à Brasília para votar, por que o cidadão não pode o mesmo? Ora, o cidadão pode votar remotamente, assim como o deputado! E será responsável direto pelos rumos da nação. A democracia direta pode criar um admirável mundo novo!
Não se trata de nenhuma utopia, mas de um projeto político perfeitamente viável. Basta vontade política.
Idealistas de ontem se contentavam com valores. Céticos de hoje procuram resultados.
A democracia precisa evoluir para se justificar aos céticos.
Merice Lacerda
Advogada em Alfenas
Democrata



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