Dra. Gabriela Vieira Itagiba
Efeito do uso de telas para a saúde das nossas crianças.
canva
Há alguns anos, já temos ouvido recomendações sobre a limitação do uso de telas por crianças e, em janeiro de 2025, foi promulgada a lei Nº 15.100, que dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica.
A neurociência nos indica porque isso é tão importante.
Os estudos revelam o efeito negativo das telas para a saúde das crianças e dos jovens. A geração Z, nascida entre 1997 e 2010 é a primeira geração a ter o mundo no bolso. Porque é isso que um smartphone com acesso à internet é: um mundo! Você deixaria uma criança pequena andar sozinha na rua? Acredito que não, e é o que fazemos ao permitir que uso um smartphone com acesso à internet. Temos superprotegido nossas crianças do mundo real enquanto as deixamos circular livremente pelo mundo virtual, e isso é um grande perigo.
Temos acompanhado a reconfiguração da infância, que deixou de se basear no brincar e se tornou baseada no celular. A consequência dessa mudança é o aumento progressivo do sofrimento. O declínio da infância baseada no brincar priva as crianças do que elas realmente precisam para alcançar o máximo desenvolvimento. As interações ao celular são descorporificadas, assíncronas, sem custo de entrada ou saída e sufocam a cultura familiar e comunitária. Enquanto a criança que brinca busca oportunidades para crescer, as telas ativam um sistema de inibição comportamental e deixam as crianças inseguras e ansiosas. Assim, livros, palavras e ideias de deveriam ser fonte de reflexão, curiosidade e criatividade, passam a ser vistos como prejudiciais, perigos e até traumatizantes.
Queremos crianças ativas, saudáveis, criativas e livres para inovar e amar. Para isso, precisamos oferecer estímulos adequados no tempo oportuno. A desenvolvimento é acelerado na primeira infância e 90% da função cerebral é alcançada aos 5 anos de idade. Essa é a fase em que os estímulos adequados causam o desenvolvimento máximo. Quando essa fase passa, o aprendizado já não acontece com tanta excelência. As atividades mais simples são a base para os aprendizados mais complexos. Como na construção de um prédio, a fundação deve ser boa o bastante para sustentar os andares superiores e, se um problema na base é descoberto quando já se está no 10º andar, por exemplo, é complicado voltar e recuperar a construção.
A neurociência também nos ensina que o lobo frontal, onde está o discernimento, é a última parte do cérebro a estar em pleno funcionamento, o que ocorro por volta dos 18 anos. Por isso, a responsabilidade de estabelecer o tempo em tela é nossas, dos adultos, que temos a capacidade de discernir e escolher o que é melhor.
É importante entender por que as telas são prejudiciais para se convencer e educar bem quem depende de nós. Há inúmeros efeitos ruins, mas destaco quatro: a privação social, a privação do sono, a atenção fragmentada e o vício. Assim como evoluímos na segurança de nossas crianças em vários outros campos como com o uso de sinto e cadeirinha para protegê-las no trânsito, podemos proteger o desenvolvimento limitando o uso das telas conforme a recomendação do Colégio Americano e a Sociedade Brasileira de Pediatria. As diretrizes são:
Menores de 2 anos não devem ter qualquer contato com telas;
De 2 a 5 anos no máximo 1 hora por dia;
De 6 a 10 anos, no máximo 2 horas por dia;
De 11 a 18 anos, no máximo 3 horas por dia, incluindo videogames.



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