Marco Carvalho | Marquinho do SUS
O debate acabou. O espetáculo continua. E o Brasil?
O confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro revela uma política que aprendeu a conquistar plateias, mas continua devendo respostas ao país.
O Brasil conseguiu uma façanha curiosa.
Transformou o debate presidencial, que deveria ajudar o eleitor a escolher quem vai administrar um país de mais de 200 milhões de habitantes, numa espécie de campeonato nacional de provocações.
Ao final, cada torcida declara seu campeão. Os apoiadores de um candidato compartilham seus melhores momentos. Os do outro fazem exatamente a mesma coisa. As redes sociais distribuem os vídeos, os comentaristas anunciam vencedores e derrotados, e o eleitor recebe mais uma oportunidade de confirmar aquilo em que já acreditava antes de ligar a televisão.
O debate termina. A campanha continua. E os problemas do Brasil permanecem onde estavam.
Foi essa a impressão deixada pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, promovido pela Band em 18 de outubro. Mas seria cômodo atribuir exclusivamente aos dois candidatos a responsabilidade pelo espetáculo. Eles também são produtos de um ambiente político que nós, cidadãos, ajudamos a construir.
E talvez essa seja a parte mais incômoda.
Duas décadas de política. E ainda discutimos personagens.
Desde o início dos anos 2000, a política brasileira gravitou fortemente em torno de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Depois vieram crises, rearranjos partidários e a ascensão de Jair Bolsonaro, que reorganizou parte significativa da direita em torno de sua figura. Agora, até a sucessão política parece obedecer à lógica de conservação desses protagonismos.
É como se o país estivesse permanentemente discutindo quem deve ocupar o centro do palco, enquanto o roteiro permanece em segundo plano.
Não estou dizendo que nada mudou. Mudaram governos, alianças, prioridades, políticas econômicas e circunstâncias históricas. Houve avanços relevantes, equívocos e diferenças profundas entre projetos de poder. Mas resistiu ao tempo nossa dificuldade de separar convicções políticas da fidelidade pessoal aos líderes.
Se o nosso candidato acerta, demonstrou competência. Se erra, foi vítima das circunstâncias. Se o adversário acerta, existe alguma intenção escondida. Se erra, confirma tudo aquilo que sempre dissemos sobre ele.
A política adotou a lógica do futebol, mas sem a vantagem de terminar depois dos noventa minutos.
O debate que vale mais pelo corte do que pela resposta
O encontro da Band revelou uma característica das campanhas contemporâneas: os candidatos já não falam apenas para quem acompanha o programa. Falam também para quem assistirá, horas depois, a um vídeo de trinta segundos.
Uma provocação bem ensaiada pode gerar milhares de compartilhamentos. Uma expressão de irritação vira derrota. Uma resposta evasiva parece brilhante quando o recorte elimina a pergunta original. Uma proposta séria, que exige números e explicações, dificilmente disputa atenção com uma frase preparada para viralizar.
É a economia da atenção aplicada à disputa pelo poder.
Não se exige que candidatos sejam incapazes de improvisar ou de responder com firmeza. Comunicar bem é indispensável. O problema começa quando a comunicação deixa de explicar uma proposta e passa a substituir a própria proposta.
Na segurança pública, por exemplo, Flávio Bolsonaro defendeu ampliar drasticamente as vagas prisionais e endurecer o tratamento das facções; Lula insistiu na maior coordenação federal do setor. São caminhos distintos, que deveriam provocar perguntas sobre orçamento, competências dos entes federativos, capacidade de execução e indicadores de resultado. No calor do confronto, porém, a tentação do slogan costuma ser mais forte do que a explicação.
Um SUS “padrão Einstein” resolve o quê?
O debate sobre a saúde ofereceu um exemplo ainda mais próximo da vida cotidiana. Flávio Bolsonaro falou em levar ao SUS um padrão de atendimento associado ao Hospital Albert Einstein, com prontuário eletrônico integrado e telemedicina. Lula defendeu investimentos no sistema público, ampliação do Mais Médicos, Farmácia Popular e diagnóstico precoce de câncer.
Ambos apresentaram ideias que merecem exame. Mas a frase publicitária não pode valer como plano de governo, assim como a enumeração de programas não substitui a cobrança por resultados.
Quanto custaria universalizar determinado padrão de atendimento? Como garantir profissionais nos municípios menores? Como reduzir filas de especialidades? Quem financiaria a integração tecnológica? Como medir o que efetivamente melhorou para o usuário?
Essas são perguntas de gestão, não de torcida.
Quem conhece a realidade do serviço público sabe que uma decisão aparentemente simples pode envolver financiamento, legislação, profissionais, contratos, fiscalização, planejamento e responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios.
O SUS não funciona por aplauso. Uma consulta não acontece mais cedo porque um candidato venceu um embate televisivo. Uma cirurgia não é antecipada porque determinada fala recebeu milhares de curtidas.
O cidadão precisa de resultados. E resultados dependem de decisões que raramente cabem em slogans.
Criticar o personalismo não significa equiparar responsabilidades
Não considero que Lula e o bolsonarismo representem projetos idênticos, nem que seus atos e responsabilidades possam ser colocados indiscriminadamente na mesma balança. As diferenças existem, importam e devem ser discutidas. Tampouco se pode equiparar divergências políticas legítimas a ataques à ordem democrática.
Mas reconhecer essas distinções não impede a crítica ao personalismo, à banalização da verdade e à pobreza de um debate que deveria esclarecer o eleitor.
É perfeitamente possível reconhecer méritos de um governo e apontar seus erros. Defender uma política pública sem aderir incondicionalmente ao partido que a implementou. Discordar do adversário sem negar um fato verdadeiro apenas porque foi dito pelo outro lado.
Parece elementar. Mas, no Brasil contemporâneo, pensar de maneira independente chega a ser tratado como uma atitude suspeita.
O problema também está deste lado da televisão
Seria confortável responsabilizar apenas os candidatos. Eles fazem o espetáculo e nós assistimos. Será?
As campanhas aprenderam a oferecer aquilo que encontra audiência. A indignação mobiliza. O medo fideliza. A provocação circula. O conflito mantém as pessoas conectadas. E as plataformas descobriram que um eleitor revoltado costuma ser um usuário bastante participativo.
Criou-se uma relação de conveniência: políticos alimentam paixões que geram engajamento, parte do eleitorado recompensa o comportamento e o ciclo recomeça.
O cidadão que deveria fiscalizar o poder passa a defendê-lo como patrimônio pessoal. Em vez de perguntar se determinada decisão foi correta, pergunta quem a tomou. Em vez de examinar a consistência de uma proposta, procura saber qual grupo ganhará com ela.
Quando isso acontece, a política deixa de servir à solução dos problemas coletivos e se transforma numa disputa por pertencimento. E pertencimento, por mais legítimo que seja, não substitui pensamento crítico.
E o Brasil, quando entra em cena?
Não acredito numa política sem conflitos. Democracia pressupõe divergência, oposição e disputa de projetos. Mas exige também alguma capacidade de distinguir argumento de propaganda, compromisso de promessa e liderança de idolatria.
Também não acredito em salvadores da pátria. Quem promete resolver sozinho problemas acumulados durante décadas costuma oferecer uma fantasia de consumo fácil e execução improvável.
O Brasil precisa de instituições fortes, administração pública profissional, responsabilidade fiscal compatível com a proteção social e políticas públicas avaliadas pelos resultados. Precisa de eleitores que não terceirizem sua consciência aos líderes que admiram e de governantes que não confundam vitória eleitoral com licença para governar em nome de uma torcida.
O debate da Band terminou. Outros virão. Teremos novas acusações, frases de efeito e vencedores declarados pelas redes sociais. E, provavelmente, os mesmos problemas esperando respostas.
Talvez a pergunta mais importante não seja quem venceu o último confronto, mas quando começaremos a exigir que quem vence uma eleição demonstre, com seriedade, como pretende governar.
Porque, quando a política vira torcida, o povo deixa de ser sujeito e vira plateia. E o país deixa de ser projeto.



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