Crônica: O automóvel virou segunda residência em São Paulo

Eu nunca tinha prestado muita atenção ao painel do carro. A gente entra, joga a bolsa, a sacola, liga tudo e sai. O ponteiro do combustível, esse sim, serve ao esvaziamento do meu bolso. Mas e o velocímetro? Alguém já olhou de verdade?
Hoje, porém, num desses engarrafamentos em que o carro da frente avançava três metros e estacionava por cinco minutos, fiquei encarando o mostrador. Não sei se foi um ataque de lucidez desconcertante, mas me dei conta do grau de insanidade presente em São Paulo. Ali estava ele, berrando em números graúdos e bem iluminados uma promessa: 240 km/h. Duzentos e quarenta. Velocidade de foguete de bolso. Um número capaz de, na minha cabeça, me fazer voar ao som de uma trilha épica.
Olhei pela janela. Vi um ciclista se equilibrando entre os carros, o suor na testa, e motoboys desviando de retrovisores. Vi uma criança de mãos dadas com o pai tentando atravessar a faixa de pedestres ocupada por automóveis. Novamente, observei o painel — 240 km/h. Senti vergonha: a minha e a alheia. Duzentos e quarenta. Para fazer o quê, exatamente?
Eu, nós, os políticos, a indústria automotiva inteira. Todo mundo cresce vendo no velocímetro uma prova de potência. Põem aquele número ali, redondo, tentador, e eu caio. A gente cai. Dá uma espiadinha no painel novo e pensa: “Uau, o bicho vai longe!”. Depois passa a vida útil do carro inteira rezando até os 90 km/h numa marginal qualquer.
Meu carro tem alma de pantera presa numa jaula urbana. Meu avô chamaria isso de “possante” — termo cujo som, aos mais jovens, talvez lembre remédio ou personagem de desenho antigo. “Olha meu possante!”, dizia ele, batendo no capô. Na época, imaginei um tônico energético. Nada disso: era o carrão potente, o bicho bruto, a máquina de ronco grosso. O meu, coitado, vive atrás de entregador de bicicleta pedalando mais rápido do que eu ando. Puro suco de potência engarrafada — no motor e no trânsito.
Mas eu, confesso, tenho uma relação ainda mais estranha com o meu carro. Meus filhos cresceram e saíram de casa há tempos. E eu, apesar da vontade de pegar a estrada e de dar alguma utilidade a esses 240 km/h além da simples existência no trânsito, ainda não tive tempo. Se somasse as horas, os dias e as semanas inteiras do ano passadas no congestionamento, já teria reformado a casa de praia, lido todos os livros da estante e aprendido um novo idioma. Em vez disso, ganhei um lugar aconchegante sobre rodas, parado. Meu carro nasceu para a Autobahn; eu, para a Radial Leste. É isso: o meu possante virou segunda residência. Já imaginei até onde colocaria o sofá, o abajur. Falta só a planta.
Sei de onde veio a ilusão: do comercial repetido à exaustão. A cidade aparece vazia, como se tivessem interditado São Paulo em minha homenagem. Eu dirijo de teto solar aberto, cabelo ao vento — na vida real, cabelo na boca. Batom intacto, unhas impecáveis, perfil de mulher livre e vitoriosa. Nada há semáforo, entregador ou carrinho de feira. Só eu, a máquina e os 240 km/h vendidos como destino natural de quem, segundo a propaganda, chegou lá. Chego, de fato. No engarrafamento de sempre. Com o mesmo batom — sobrevivente à embalagem do pão de queijo devorado no sinal. Unhas intactas. Teto solar fechado por causa da chuva.
Existe outro comercial. Esse eu conheço de cor também. O homem tem uns cinquenta e tantos, maxilar trabalhado, a mão espalmada na alavanca do câmbio como se estivesse domando algo. O esforço é o ponto. A embreagem pede força — e ele tem. O carro ruge. Ele não sorri. Sorrir seria fraqueza. Nenhum dos dois comerciais tem trânsito. Nenhum tem lombada. Nenhum tem entregador. Os dois têm cidade vazia.
Outro dia, vi meu tio, já na casa dos sessenta, passar um pano no capô do sedã com uma ternura que eu quase nunca o vi dedicar à própria esposa. Naquele instante, entendi a engrenagem inteira: a propaganda colou a potência do carro à potência masculina, e a indústria jamais soltou esse osso. Para muitos homens, quando o corpo pesa, o joelho reclama e a força começa a falhar, o automóvel vira um abrigo simbólico. Se o corpo já falha na entrega do que um dia entregou, o motor ainda pode rugir na garagem. O carro potente funciona como um Viagra da autoestima. Por isso, entre eles, aceitar o carro como segunda residência, refúgio com sofá e abajur imaginários, parece mais difícil. Ele precisa continuar sendo performance pura, prova ambulante de vigor. Admitir a transformação do possante em jaula equivale a reconhecer que certa ideia de potência, no corpo e na máquina, já ficou para trás.
Enquanto isso, eu posso ironizar o meu. Posso chamá-lo de segunda residência, imaginar abajur, sofá, aconchego. Esse é um luxo fora do alcance dele: o luxo da ironia. Mas, ironia das ironias, o mesmo carro promissor de rejuvenescimento também se torna, na cidade, uma ameaça à vida alheia. Trocamos uma potência por outra: a do motor no lugar da força física já perdida. E, no trânsito, a conta recai sobre os corpos frágeis — crianças, idosos de verdade, ciclistas — desprovidos de motor, são incapazes de entrar nessa disputa.
A física é simples. A 60 km/h, a senhora da feira está perdida. O número capaz de salvá-la fica espremido no canto esquerdo do meu painel, tão pequeno que parece um pedido de desculpas. Trinta seria o correto nas cidades, mas mal passa de um suspiro na escala da minha máquina. Sempre surge o coro contra a redução da velocidade: “Vai parar a cidade!” Segue igual. A diferença se mede em segundos por quilômetro. Segundos. A outra conta se mede em anos, em famílias destroçadas, em funerais numa terça-feira. O velocímetro jamais faz essa conta. Limita-se à promessa.
Olho o painel. O ponteiro do combustível está na reserva de novo. O do velocímetro, em 240. Um me diz o fim. O outro, a fantasia.







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