• Alfenas, 21/10/2026
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Marco Carvalho | Marquinho do SUS

O bolsonarismo, a esquerda e as contradições da política brasileira

Algumas reflexões sobre a polarização, o populismo e as eleições de 2026.


O bolsonarismo, a esquerda e as contradições da política brasileira

Tenho sido frequentemente questionado sobre o cenário político brasileiro e, especialmente, sobre a permanência do bolsonarismo como força política, mesmo depois dos acontecimentos que marcaram o país nos últimos anos. A resposta, a meu ver, exige compreender um processo histórico que antecede em muito a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.


Há algum tempo venho desenvolvendo estudos e hipóteses sobre esse fenômeno, procurando compreender suas origens, sua consolidação e, principalmente, as razões de sua sobrevivência política após a derrota eleitoral de 2022. Parte dessas reflexões envolve também o comportamento da esquerda brasileira, suas transformações e algumas contradições que considero importantes para explicar o cenário atual.


Bolsonaro não criou a maioria das insatisfações que deram origem ao movimento que leva seu nome. Demandas por segurança pública, autoridade, reconhecimento religioso, conservadorismo moral, liberdade econômica e contestação à política tradicional já estavam presentes na sociedade brasileira. Durante décadas, porém, encontravam-se dispersas entre diferentes grupos sociais e representações partidárias.


O processo de transformação econômica e social promovido pelos governos petistas também precisa ser considerado. A ampliação do consumo, do crédito, da escolarização e da mobilidade social produziu mudanças relevantes na sociedade. Entretanto, a ascensão econômica de uma parcela da população não representou, necessariamente, sua adesão permanente ao projeto político responsável por parte dessas conquistas. Novas condições materiais também produziram novas expectativas, aspirações individuais e formas de identificação social.


A crise econômica, os escândalos de corrupção, as manifestações iniciadas em 2013 e o desgaste progressivo das instituições representativas forneceram as condições para uma reorganização desse eleitorado. Bolsonaro encontrou nesse ambiente a oportunidade de reunir insatisfações distintas sob uma identidade política comum, substituindo progressivamente a direita tradicional como principal referência do antipetismo.


É nesse ponto que considero pertinente recorrer a Sigmund Freud. Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), ao examinar os mecanismos de identificação, Freud observa que a identificação pode ser parcial, tomando emprestado apenas um traço da pessoa que serve de referência.


Essa observação ajuda a compreender um aspecto importante do bolsonarismo: não era necessário que todos os seus eleitores compartilhassem integralmente uma mesma ideologia. Para muitos, bastava uma identificação inicial. A defesa da autoridade policial, a religião, os valores familiares ou a rejeição ao PT podiam constituir pontos de aproximação. O vínculo político, posteriormente, adquiria uma dimensão afetiva e coletiva, ultrapassando os motivos particulares que haviam produzido a adesão.


O pensamento de Ernesto Laclau, especialmente em A razão populista (2005), oferece outra perspectiva relevante. Para Laclau, o populismo não se resume a um discurso demagógico. Ele envolve a articulação de demandas sociais heterogêneas em torno de uma identidade coletiva, frequentemente construída pela oposição entre o povo e aqueles que são apresentados como seus adversários.


Sob essa perspectiva, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo podem ser examinados como experiências de construção populista, embora apresentem origens, programas, trajetórias e responsabilidades históricas diferentes. Ambos se apoiam em lideranças personalistas e na capacidade de produzir identificação coletiva. Ambos também recorrem, em diferentes circunstâncias, à divisão simbólica da sociedade entre aqueles que representariam os interesses legítimos do povo e seus supostos adversários.


O problema surge quando essa identificação se transforma em instrumento de exclusão, e a fidelidade ao líder ou ao grupo passa a prevalecer sobre a análise crítica dos acontecimentos. O populismo não conduz necessariamente ao extremismo, mas a idealização das lideranças, a intolerância à divergência e a transformação do adversário em inimigo podem favorecer comportamentos fanáticos, presentes em diferentes campos ideológicos.


No caso brasileiro, considero especialmente preocupante o comportamento de determinados segmentos da militância petista, que ao reivindicar exclusivamente a representação das classes populares demonstram crescente dificuldade em reconhecer a pluralidade de valores e interesses existente nessas mesmas classes.


A expressão "pobre de direita", frequentemente utilizada de maneira depreciativa, é sintomática desse problema. Ela pressupõe que a condição econômica deveria determinar a orientação política do indivíduo, como se a população de baixa renda estivesse obrigada a compartilhar integralmente determinada concepção de mundo.


O trabalhador, entretanto, ser pensante que é, não deixa de possuir convicções religiosas, valores familiares, preocupações com segurança, aspirações de prosperidade ou concepções próprias de liberdade pelo simples fato de pertencer a uma classe social economicamente desfavorecida.


Minha percepção é que setores da militância progressista passaram a exigir uma espécie de concordância programática quase integral para reconhecer alguém como integrante legítimo de seu campo político. Determinadas divergências morais, religiosas ou culturais tornam-se suficientes para desqualificar o interlocutor, frequentemente mediante julgamentos que revelam mais arrogância intelectual do que disposição para compreender suas razões.


O bolsonarismo, embora também possua importantes mecanismos de exclusão e intolerância, conseguiu operar de maneira distinta na formação de sua coalizão eleitoral. A concordância parcial com determinadas pautas podia representar uma porta de entrada para o movimento, sem que isso exigisse, inicialmente, a aceitação de todas as suas posições.


A segurança pública constitui um exemplo bastante expressivo. Para o cidadão que convive diariamente com a criminalidade, a demanda por autoridade, ordem e proteção do Estado pode possuir significado muito mais imediato do que discussões abstratas sobre política criminal. Quando esse cidadão percebe que sua preocupação é recebida com desconfiança ou reduzida a um suposto autoritarismo, abre-se espaço para quem se apresenta como defensor de suas necessidades.


Naturalmente, segurança pública e direitos humanos não são conceitos incompatíveis. A própria segurança integra o conjunto dos direitos fundamentais. O que interessa à análise política, contudo, é compreender como essa relação é percebida pela população e quais consequências decorrem da forma como os diferentes campos se comunicam com ela.


Outra contradição importante envolve o progressismo identitário e a distribuição dos recursos públicos. Como alguém que também se dedica ao estudo da gestão pública e do Direito Administrativo, considero indispensável discutir os conflitos materiais que surgem quando demandas específicas disputam recursos orçamentários necessariamente limitados.


O reconhecimento dos direitos de minorias é parte de uma sociedade democrática. Isso, entretanto, não elimina a necessidade de critérios transparentes de prioridade, proporcionalidade, equidade e interesse público na alocação dos recursos. No SUS, por exemplo, decisões sobre financiamento de tratamentos e serviços precisam considerar necessidades clínicas, evidências científicas, gravidade e efeitos distributivos.


Questionar essas escolhas não deveria significar, automaticamente, oposição aos direitos dos grupos beneficiados. Transformar conflitos legítimos sobre prioridades administrativas em julgamentos de superioridade moral pode ampliar a distância entre o discurso político e a experiência concreta dos cidadãos.


A percepção ocupa posição central nesse processo. Um governo pode apresentar indicadores favoráveis de emprego e renda e, simultaneamente, enfrentar insatisfação entre pessoas que continuam sentindo os efeitos do endividamento, dos juros, dos preços e da insegurança cotidiana. A política não se organiza exclusivamente em torno de indicadores objetivos. As pessoas interpretam a realidade a partir de suas experiências, expectativas e vínculos sociais.


Considero que a esquerda brasileira, nos últimos quatro anos, cometeu equívocos ao privilegiar excessivamente a confrontação moral e institucional com o bolsonarismo, sem enfrentar de maneira suficiente algumas das condições sociais e culturais que sustentam sua reprodução. A defesa da democracia e a responsabilização por condutas antidemocráticas são necessárias, mas não resolvem, isoladamente, as insatisfações que deram origem ao movimento.


Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 e as investigações sobre a tentativa de ruptura institucional não podem ser relativizados. Tampouco autorizam tratar indistintamente milhões de eleitores de direita como participantes ou defensores daqueles atos. A responsabilidade jurídica é individualizada; a identidade eleitoral, muito mais heterogênea.


A consolidação posterior do bolsonarismo, inclusive sua capacidade de reorganização partidária e de transferência de apoio político, demonstra a importância dessa distinção para compreender a realidade brasileira.


Chego, então, à eleição de 2026.


A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 21 de outubro, apresentou números que considero particularmente interessantes. Na intenção de voto espontânea, o percentual de indecisos passou de 7% para 14% em uma semana. Entre as mulheres, aumentou de 8% para 17%. Entre os eleitores independentes, saltou de 13% para 31%.


O levantamento também revelou que 44% dos entrevistados temem a volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 42% temem a reeleição de Lula. A diferença encontra-se dentro da margem de erro.


É evidente que pesquisas de intenção de voto não demonstram, isoladamente, relações de causalidade. Na modalidade estimulada, por exemplo, a indecisão é significativamente menor. Também seria equivocado desconsiderar os movimentos de rejeição aos candidatos, inclusive a redução da rejeição a Lula na última semana.


Ainda assim, os resultados oferecem elementos para uma interpretação que considero pertinente: a estratégia de mobilização pelo medo, utilizada pelos dois campos, pode fortalecer as convicções de seus respectivos apoiadores sem necessariamente produzir a adesão daqueles que não se reconhecem plenamente em nenhuma das alternativas.


O eleitor independente não é desprovido de convicções políticas. Muito pelo contrário, talvez seja justamente aquele que conserva maior disposição para o exercício da crítica, por não se sentir obrigado a justificar os erros de um campo ou a negar os acertos do outro. Sua independência pode resultar de convicções suficientemente amadurecidas para dispensar a tutela de lideranças e a necessidade de pertencimento. Pode defender políticas sociais e, simultaneamente, questionar determinadas pautas progressistas; reconhecer a importância de valores conservadores sem aderir ao radicalismo de setores da direita; ou concordar com medidas de um governo sem assumir compromisso com o conjunto de seu projeto político. A independência, nesse sentido, não representa ausência de posicionamento, mas autonomia intelectual para examinar cada questão por seus próprios fundamentos, preservando a liberdade de concordar, discordar e, sobretudo, reconhecer as próprias contradições.


A polarização populista, contudo, frequentemente procura reduzir essa complexidade a uma escolha de pertencimento. A crítica a um campo passa a ser interpretada automaticamente como adesão ao adversário. Divergir do líder torna-se sinal de deslealdade. O debate público perde espaço para a defesa quase religiosa de identidades políticas.


Esse ambiente favorece o fanatismo, dificulta a autocrítica e permite que contradições anteriormente condenadas sejam justificadas quando praticadas pelos próprios aliados. A consequência é uma sociedade na qual a identificação com o grupo pode adquirir mais importância do que a coerência dos princípios que seus integrantes afirmam defender.


Talvez seja precisamente essa a contradição revelada pelo crescimento dos indecisos na pesquisa espontânea: quanto mais os dois campos procuram convencer a população de que o outro representa uma ameaça, maior pode ser, entre determinados eleitores, a percepção de que nenhum deles oferece representação satisfatória.


Não pretendo, com essas observações, equiparar acontecimentos historicamente distintos ou desconhecer a responsabilidade de cada liderança por suas escolhas. Muito menos assumir a defesa de qualquer candidato. Minha preocupação é compreender os mecanismos que transformaram a política brasileira em uma disputa na qual a identidade partidária frequentemente se sobrepõe à avaliação dos problemas concretos da sociedade.


Estas reflexões representam apenas uma pequena parte das hipóteses e leituras que venho desenvolvendo e que pretendo apresentar, oportunamente, em um trabalho mais abrangente.


Por ora, considero necessário preservar algo que a radicalização política parece tornar cada vez mais difícil: a liberdade de reconhecer acertos, apontar equívocos e exercer a crítica sem precisar demonstrar fidelidade a um grupo.


A democracia exige responsabilidade institucional, respeito às divergências e disposição para compreender a sociedade como ela efetivamente se apresenta, inclusive quando suas escolhas contrariam nossas próprias convicções.



Se você aprecia meus textos e reflexões sobre política, história, gestão pública e os desafios da nossa sociedade, convido-o a me acompanhar também nas redes sociais. Você pode acompanhar minhas publicações e novas colunas no portal 4º Poder. O diálogo e a troca respeitosa de ideias são sempre bem-vindos.


Sobre o autor

Marco Carvalho - Marquinho do SUS
Advogado e historiador, especialista em Gestão Pública, Neurociências, Direito Administrativo, Direito Sanitário e Auditoria do Setor Público. Professor e militante social em defesa do SUS, da educação, da inclusão e da democracia. Atua buscando conectar conhecimento técnico e visão humanizada para o desenvolvimento responsável do potencial de Alfenas.




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