Merice Lacerda
Não se deixem roubar ou roubaremos depois
Geopolítica na América
Imagens das ruas de HavanaEm tempos de instabilidade global, nações americanas sob regimes autoritários e sufocadas por embargos econômicos tornaram-se alvos preferenciais de uma nova dinâmica de poder, muitas vezes camuflada sob o manto da promoção democrática e da ajuda humanitária. Mais do que a antiga alcunha de "quintal" geopolítico, a América Latina e o Caribe assumem o contorno de zonas de disputa assimétrica, onde a fragilidade interna é instrumentalizada por interesses externos para o controle de ativos estratégicos.
O cenário venezuelano ilustra bem esse mecanismo. Internamente, o país enfrenta um modelo desgastado pela corrupção e pela forte presença militar na gestão pública. Do lado de fora, a resposta dos EUA a essa vulnerabilidade foi invadir, sequestrar o ditador e emplacar liderança interina sem lastro popular real. Essa manobra, longe de mitigar o sofrimento da população serviu para tensionar a soberania do país e abrir espaço para o cerceamento de suas principais riquezas. O petróleo e o ouro, este último em escalada histórica de valorização no mercado internacional, deixaram de ser recursos puramente domésticos e viraram peças de barganha em um tabuleiro onde o principal prejudicado continua sendo o cidadão comum.
Cuba, a próxima a ser pilhada pelos EUA, enfrenta um estrangulamento econômico crônico sob uma realidade estrutural distinta. Na ilha, a centralização econômica está nas mãos do Estado, que gerencia setores vitais como o turismo, comércio exterior e telecomunicações. A narrativa externa de uma transição democrática iminente esconde o real interesse em absorver essa infraestrutura de exploração criada pelo estado cubano, além de se apropriar de uma posição geográfica estratégica. O resultado pretendido pela pressão dos EUA não é uma emancipação social mas a substituição do monopólio estatal pelo controle de corporações americanas.
O mesmo parece que não será possível no Irã, nação de matriz milenar cuja identidade histórica e resiliência institucional foram forjadas e testadas em séculos de conflitos e invasões. Tratar o estado iraniano sob a mesma ótica simplista aplicada a atores regionais insurgentes ou voláteis foi o grande erro americano.
Como a lógica da pilhagem fácil só funciona mesmo na América, é o caso do povo brasileiro ficar atento.
Neste cenário historicamente conturbado na América Latina, o Brasil tem se destacado pela relativa estabilidade institucional e pujança econômica. No entanto, o tamanho de sua economia e a solidez de suas estruturas não o tornam imune ao vírus do autoritarismo; pelo contrário, apenas elevam o valor do espólio para os predadores do Estado.
A mesmíssima cartilha aplicada na Venezuela e em Cuba já foi ensaiada por aqui. A tentativa de subverter a ordem democrática por meio do aliciamento das Forças Armadas nada mais é do que o roteiro para um repeteco latino-americano onde as armas deixam de proteger e passam a subjugar a população.
Casos de corrupção institucionalizada e favorecimentos escandalosos no mercado bancário demonstram que o projeto golpista e o saque econômico caminham de mãos dadas.
Internamente, o que vem depois já é sabido: empobrecimento da população e expropriação das liberdades individuais.
Externamente, o que pode advir depois também não é animador: além de condições sociais e laborais cada vez mais precárias, commodities como ouro, petróleo, água e minerais críticos serão pilhados à luz do dia.
O recado dos EUA para os países da América Latina está dado: não se deixem roubar ou roubaremos depois.
Se quisermos ser pilhados pelas regras do jogo como temos sido até agora, é melhor parar de brincar de democracia na América.
Merice Lacerda
Advogada em Alfenas
Fã de salsa



COMENTÁRIOS