Merice Lacerda
Uma caixa chamada psiquê
Cotidiano / Dia das Mães
Família no interior do BrasilTenho lembrança da minha infância na roça de um baú rústico de madeira, quatro pés o que lhe conferia uma altura ótima, uma tampa com abas que fazia com que o baú fechasse perfeitamente. Deveria ter de dois metros a dois metros e meio de largura.
Reza a lenda que o baú havia sido organizado, com as roupas devidamente dobradas.
Eu sou a última filha e embora eu não acredite muito nessa história, também não duvido dela.
Fato é que quando me deparei com a caixa baú na minha vida, a bagunça já estava instalada.
Minha mãe adorava lavar roupa. Era uma tarefa sagrada para ela, de domingo a domingo.
A roupa lavada era colocada para secar em um varal de arame farpado que ficava próximo da porta da cozinha.
O varal era suspenso por dois bambus para evitar que algum distraído ficasse sem o pescoço.
Depois da roupa estendida, era próprio tirar um cochilo. Poderia passar até furacão que a roupa continuaria no mesmo lugar.
À tardezinha, recolhi-se as roupas que de tão duras, paravam em pé e jogava-as na caixa, tudo junto e misturado.
Aí é que vinha a parte mais divertida.
Na fila do banho, o necessitado de roupa limpa ia se ter com a caixa.
Se fosse o seu dia de sorte, a sua roupa estaria por cima.
Mas como na vida do pobre o azar é que predomina, a roupa desejada, depois a indesejada, depois qualquer uma, estava sempre escondida no meio das outras.
Então o jeito era passar a roupa do lado esquerdo para o lado direito e se isso não fosse o suficiente, passava-se a roupa do lado direito para o lado esquerdo e se isso não fosse o suficiente, jogava-se a roupa toda no chão e a recolocava na caixa. Era uma luta encontrar sua própria roupa naquela caixa.
Mudamos para cidade e compramos guarda-roupa. Que progresso!
Minha mãe que não era boba nem nada, saiu-se com essa: a Merice dobra roupa bem. Cascata dela, mas funcionou, eu acreditei e comecei a dobrar as roupas.
O tempo passou e quando a vida apertou eu rasguei a fantasia. A genética falou mais alto.
Não havia uma caixa, mas havia uma cama. E por lá mesmo ficavam as minhas roupas.
Passou a época mais difícil, não sem sequelas. Voltei a usar guarda-roupas mas sem muita seriedade.
Se acaso alguém estiver precisando tomar um choque de realidade, sugiro o meu guarda-roupas.
Eu dobro as roupas, abro as portas, jogo lá dentro e saio rapidamente.
Como pessoa coerente que sou, se não arrumo o meu guarda-roupas, não vou arrumar de mais ninguém. Essa é a minha lei.
Estou atrás de uma caixa, como aquela de outrora, para os mesmos fins.
Eu, que cheguei a acusar minha mãe de bagunceira, mudei de ideia. Minha mãe era uma sábia.
Naquele fim de mundo, com aquela renca de filhos, dobrar roupa era pura perda de tempo.
Na verdade, na verdade, dobrar roupas, passar roupas, arrumar gavetas, é ótimo para quem pode, mas não é o mais importante.
Não "passe pano" para os erros dos filhos, não dê presentes caros sem poder, não se endivide. Os filhos não vão te agradecer por isso.
O que fica de bom na caixa chamada psiquê é a segurança e a estabilidade que sentimos na infância. São esses sentimentos que moldam o ser adulto e quando o adulto estiver em apuros, são essas seguranças ou fragilidades que definirão suas atitudes perante aos desafios da vida.
Um feliz dia das mães à todas as mães leitoras.
Merice Lacerda
Advogada em Alfenas-MG
Bagunceira, como mamys.



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