• Alfenas, 07/07/2026
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E a Copa acabou. Mas trocar de estratégia na hora errada não é só coisa de futebol

jovempan.com.br
E a Copa acabou. Mas trocar de estratégia na hora errada não é só coisa de futebol

O Brasil terminou o jogo contra a Noruega com 34% de posse de bola. Segundo a Opta, foi a menor marca da seleção em uma Copa do Mundo desde 1966, quando começaram os registros. Foram 329 passes trocados, contra 680 dos noruegueses. O placar de 2 a 1 quase soa generoso diante desses números.





Do outro lado estava a Noruega, 31ª no ranking da Fifa e ausente de um Mundial havia 28 anos. Antes desta Copa, nunca havia vencido um jogo de mata-mata na história. Não carregava tradição nem favoritismo. Ainda assim, controlou a bola, ditou o ritmo e eliminou o pentacampeão logo no primeiro confronto de peso.





Um lance explica mais do que a derrota, explica um reflexo. O Brasil vinha melhor com suas pernas mais novas, tinha crescido depois da entrada de Endrick, ganhado profundidade e parecia encontrar um caminho. Aos 67 minutos, a aposta foi previsível: colocar em campo a camisa 10, o nome mais forte do banco, para resolver no talento aquilo que o coletivo começava a construir. Não se trata de responsabilizar um jogador, e futebol não aceita explicação tão simples. Bruno Guimarães já havia perdido um pênalti no primeiro tempo, e Haaland, um dos melhores atacantes do planeta, decidiu do outro lado. O que fica é o reflexo: diante da crise, o Brasil recorreu ao símbolo, ao nome, ao jogador capaz de resolver sozinho, em vez de confiar na estrutura que começava a funcionar. É um instinto antigo, e o problem é que o futebol mudou. O mundo corporativo também.





Do gramado para o contencioso de massa





Esse mesmo reflexo aparece nos departamentos jurídicos que administram contencioso de massa. Durante décadas, o jurídico brasileiro também jogou com a camisa. Nome no mercado, escritório tradicional, tempo de casa, um advogado brilhante que resolvia o caso difícil no talento. Funcionava enquanto o volume era administrável, a velocidade era menor e o adversário jogava o mesmo jogo.





Esse cenário acabou. Hoje as empresas litigam aos milhares, com prazos simultâneos e teses replicadas em segundos, e ferramentas de automação, jurimetria e inteligência artificial já mudam a forma como as demandas nascem, são classificadas e respondidas. Reputação, experiência e talento continuam contando, mas nenhum deles substitui método. Um jurídico não administra dez mil processos porque tem um craque na equipe, e sim porque estruturou dados, fluxos, critérios de acordo, teses padronizadas e indicadores que mostram onde a carteira está sendo ganha ou perdida. A camisa abre portas, mas não organiza a defesa.





Modernizar não é comprar tecnologia, é mudar o jogo





Parte dos departamentos acredita que se modernizou porque comprou tecnologia. Contratou um software, implantou um painel, testou uma ferramenta de inteligência artificial e passou a se sentir no controle. Só que painel bonito não conserta dado ruim, e nenhuma automação organiza uma carteira que ainda não sabe qual problema precisa resolver.





A escolha de ferramentas jurídicas virou, em muitos casos, disputa de vaidade. Contrata-se a solução que o concorrente anunciou ou a IA que virou assunto no mercado, antes de responder à pergunta essencial: qual gargalo concreto ela precisa enfrentar? Um contencioso com dez mil ações repetitivas exige uma resposta. Uma carteira com condenações concentradas em poucas comarcas exige outra, que passa por entender o padrão decisório antes de qualquer software. Escolher tecnologia sem mapear a operação é comprar chuteira de craque para quem joga no gol. O jurídico maduro faz o inverso: primeiro identifica onde perde tempo, dinheiro e previsibilidade, e só depois escolhe a ferramenta para aquele ponto.





Há uma parte desconfortável nessa conta, e ela vale para os dois lados do balcão. Advogados internos e externos se acostumaram a se atualizar na lei, acompanhando súmulas, repetitivos e alterações legislativas. Isso continua indispensável e já não basta. Atualizar-se passou a incluir compreender como a tecnologia organiza a carteira, como a inteligência artificial classifica documentos, onde entram os dados e quais decisões ainda exigem julgamento humano. Nenhum advogado precisa virar programador, mas o profissional de contencioso que ignora as ferramentas que organizam milhares de processos, medem risco e alimentam a diretoria joga hoje com meio time.





Modernizar contencioso de massa, no fim, é repensar o fluxo inteiro: como o dado nasce, como a tese se padroniza sem virar peça genérica, como se enxerga o litígio antes de ele explodir e como se mede resultado para além da pergunta pobre sobre ganhou ou perdeu. É trocar a lógica do craque que entra para salvar o caso pela do time que não perde a bola no meio-campo.





A Noruega não inventou o futebol. Fez o simples com método e entendeu que velocidade, disciplina e organização pesam mais que reputação, e isso bastou para derrubar quem confiava demais no passado. O jogo empresarial mudou na mesma direção. Tradição segue valiosa e o nome no mercado ainda abre portas, mas nada disso responde intimação em massa, organiza carteira desestruturada nem acompanha um adversário que passou a decidir mais rápido. Quem confundir história com preparo corre o risco de descobrir, como a seleção descobriu em Nova Jersey, que a camisa ainda é respeitada.





Mas já não assusta como antes.

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