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O brasileiro voltou aos EUA – e isso diz mais sobre o Brasil do que sobre a Disney

jovempan.com.br
O brasileiro voltou aos EUA – e isso diz mais sobre o Brasil do que sobre a Disney




Existe um termômetro curioso da economia e do humor social brasileiro que quase nunca aparece nos debates políticos: o aeroporto internacional. E, neste início de 2026, ele voltou a encher.


Dados oficiais do Escritório Nacional de Viagens e Turismo dos Estados Unidos mostram que 186,6 mil brasileiros entraram no país apenas em janeiro. É um aumento de 3% em relação ao mesmo mês de 2025. O número, por si só, poderia parecer apenas uma estatística turística. Não é.


Ele ajuda a explicar comportamento econômico, aspirações sociais e até mudanças demográficas entre Brasil e Estados Unidos, porque brasileiro não faz viagem cara em massa quando está pessimista.


Não é só Disney


Janeiro sempre foi o mês clássico das férias brasileiras. Mas o movimento atual tem um significado diferente do passado.


Durante muitos anos, a viagem aos EUA representava um evento quase excepcional, a “viagem da vida”. Hoje ela se tornou, para parte da classe média, um projeto recorrente. Não anual, mas planejado.


O perfil do viajante também mudou. Ainda existe o turismo clássico:


– Orlando

– Miami

– Nova York


Mas cresceu muito o que o setor chama de VFR (visiting friends and relatives): gente que vai visitar parentes. E isso revela outro fenômeno silencioso: a expansão contínua da comunidade brasileira nos Estados Unidos.

Ou seja, uma parcela relevante desses 186 mil viajantes não está indo apenas consumir. Está indo manter vínculos.


O paradoxo do dólar caro


À primeira vista, os números desafiam a lógica. O dólar continua valorizado, passagens seguem caras e o visto americano ficou mais burocrático depois da pandemia. Ainda assim, o fluxo aumentou.


A explicação é menos financeira do que comportamental. A viagem aos Estados Unidos ocupa um espaço simbólico muito específico para o brasileiro: previsibilidade.


Em um mundo de conflitos, crises aéreas e destinos com instabilidade política, os EUA oferecem algo muito valorizado pelo turista brasileiro: ele sabe exatamente o que vai encontrar. Funcionamento, infraestrutura, segurança jurídica, atendimento padronizado e logística simples. Para muitas famílias, isso pesa mais do que a cotação da moeda.


Ainda não voltamos ao auge


Apesar do crescimento, há um detalhe relevante: o fluxo continua abaixo do período pré-pandemia. Em janeiro de 2019, mais de 221 mil brasileiros viajaram para os Estados Unidos. Ou seja, o nível atual ainda está cerca de 15% menor.


Isso significa duas coisas ao mesmo tempo:


1. a recuperação está em andamento

2. ainda existe demanda reprimida


O que o setor de turismo vê hoje não é o pico – é a retomada.


Por que isso importa para os EUA


O dado também interessa diretamente à economia americana. Os Estados Unidos vivem uma situação curiosa: o turismo internacional global ainda enfrenta dificuldades por causa de exigências migratórias mais rígidas e custos maiores de entrada. Muitos mercados reduziram viagens.


O brasileiro não. Na prática, o país virou um dos visitantes estrangeiros mais importantes para cidades dependentes de turismo internacional, especialmente na Flórida. Hotéis, outlets, locadoras de carro e parques temáticos contam com esse fluxo.


Existe até um fenômeno conhecido por empresários locais: quando o real melhora alguns centavos, as vendas sobem.


E por que isso importa para o Brasil


Aqui está o ponto principal. A estatística não fala apenas de turismo. Ela fala de mobilidade social e projeto de vida.


A viagem aos EUA, para uma parte dos brasileiros, não é somente férias. É também:

– conhecer onde o filho pode estudar

– avaliar oportunidades de trabalho

– visitar alguém que já se mudou

– decidir uma futura mudança


O aeroporto, nesse caso, vira etapa de transição. O crescimento constante do fluxo revela uma conexão cada vez mais intensa entre os dois países — econômica, familiar e cultural.


O próximo capítulo


O movimento deve ganhar força. O principal catalisador já tem data: a Copa do Mundo de 2026, que será sediada nos Estados Unidos, Canadá e México.


Historicamente, a torcida brasileira é uma das que mais viajam em mundiais. O evento pode funcionar como acelerador de algo que já está acontecendo.


No fim, o número de 186 mil pessoas não é apenas um dado de imigração temporária. Ele revela uma realidade maior: mesmo com moeda fraca, custo alto e burocracia, o brasileiro continua olhando para fora.


E talvez o ponto mais importante seja este — os Estados Unidos seguem sendo, para uma parcela significativa da população brasileira, não só um destino turístico. Mas um horizonte possível.

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